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terça-feira, 21 de outubro de 2014

Déficit Habitacional em Pirassununga

Ouvi na rádio uma notícia no mínimo preocupante sobre a cidade de Pirassununga.

A cidade de Pirassununga receberá 385 unidades habitacionais do Programa Minha Casa Minha Vida, que serão construídas em um novo loteamento junto à Vila Santa Fé. E é só a primeira aprovação, pois a Prefeita afirma, com muito orgulho, que mais quinhentas e poucas serão ali construídas em uma segunda fase. Em ambos os casos, o empreendimento será realizado integralmente por uma empresa loteadora, que propôs todo o empreendimento para a Prefeitura, a quem coube aprovar e realizar a negociação com o Ministério das Cidades. O empreendimento também deve ter sido aprovado no Graprohab (órgão ligado ao Governo Estadual para aprovação de loteamentos).

A Prefeita, ao dar a notícia com muita satisfação, só consegue enxergar o lado positivo da notícia. Obviamente esses empreendimentos podem reduzir o déficit habitacional do edifício (segundo a Prefeita, resolvem o déficit). Eu poderia até concordar, com ressalvas. A cidade vive uma fase de expansão demográfica e o que o mercado tem oferecido atende apenas uma faixa da população com melhores condições financeiras – e o novo empreendimento atende a faixa entre 1 e 3 salários mínimos de renda mensal. Mas esse lado “positivo” da notícia é eclipsado – para não dizer totalmente apagado – pelos aspectos negativos. Vamos a eles.

O empreendimento será realizado na Vila Santa Fé, que é um bairro separado do centro, distante 7 quilômetros por uma estrada de uma pista e duas faixas. Está distribuído ao lado dessa estrada, porém invisível pela presença de uma área de mata entre a estrada e o bairro. Não possui centro comercial, apesar de se localizar razoavelmente próximo à sede do distrito de Cachoeira de Emas (pouco mais de 2 quilômetros). É o bairro com os piores índices sociais do município. Não possui área de expansão urbana de acordo com o Plano Diretor vigente.

Em outras palavras: esse bairro é um esconderijo de pobreza. Não há qualquer mix social: ali vivem apenas famílias pobres, que sentem a segregação diariamente. Não há qualidade urbana, comércio diversificado ou vida cultural. Há poucas áreas de lazer e áreas institucionais qualificadas.

Enquanto isso, Pirassununga possui vazios urbanos significativos em sua porção central. Uma região cada vez mais elitizada, alvo de projetos verticalizados e especulação imobiliária. Fiz um recorte do mapa da cidade. Ali estão demarcadas cinco áreas enormes. As três ao sul, contíguas ao centro, estão cercadas por avenidas largas e dotadas de total infraestrutura. São antigas áreas industriais. Somadas, possuem aproximadamente 9,4 hectares. Se considerarmos uma ocupação exclusivamente residencial, com edifícios de três pavimentos e uma taxa de ocupação rarefeita, de 30%, esses terrenos comportariam, tranquilamente, mais de 1.500 unidades habitacionais. Se a Prefeitura e a Câmara de Vereadores do Município fizessem uso de suas prerrogativas de planejar e legislar o território municipal, especialmente a área urbana, poderiam demarcar esses locais como Zonas Especiais de Interesse Social, com finalidade para habitação social. Poderiam, também, demarcar tais áreas como terrenos de edificação compulsória, sob pena de IPTU progressivo. E, finalmente, demarcá-las como áreas de preempção, permitindo que a municipalidade tivesse prioridade de compra.

Vamos fazer uma suposição e considerar que o proprietário ou um empreendedor resolvesse utilizar uma parcela dessa área para produção habitacional. Selecionamos a maior delas, com 80.000 metros quadrados, para esse exemplo. As fachadas voltadas para as avenidas poderiam ter uso comercial, com vagas de estacionamento a 90º e dois pavimentos, totalizando aproximados 20.000 metros quadrados. As calçadas podem ser afastadas e arborizadas, permitindo a circulação confortável e sombreada. Aproximadamente na metade do terreno seria aberta uma via, interligando o traçado urbano de leste a oeste. Pode ser uma via tipo “boulevard”, sem guias e sarjetas, para velocidade baixa e acesso aos prédios residenciais. No interior do quarteirão podem ser construídos prédios em três áreas, com apartamentos de tamanhos variados, em apenas três pavimentos, talvez com estacionamento no nível do piso. A área total construída desse setor habitacional teria pouco mais de 50.000 metros quadrados, o que pode resultar em mais de 600 unidades habitacionais. Dessas, ¼ poderia ser destinada a habitação de interesse social na faixa até 3 salários mínimos e ¼ para a faixa de 3 a 6 salários mínimos. Metade poderia ser comercializada fora do Programa Minha Casa Minha Vida, de acordo com a demanda do mercado.



Esse empreendimento modelo traria apenas vantagens para a cidade. Uma área central seria urbanizada, reduzindo os custos sociais de um terreno gigantesco vazio, mesmo dotado com toda a infraestrutura . Seiscentas famílias teriam acesso à casa própria, sendo que 150 delas seriam excluídas da lista do déficit habitacional. O impacto sobre o valor dos alugueres seria salutar. A economia do município seria dinamizada com um novo centro comercial, interligando o centro cultural (antiga estação ferroviária) e um grande supermercado. Teríamos justiça social: um especulador a menos e mais de duas mil pessoas morando melhor, com mais classes sociais convivendo e assim se respeitando.

O empreendimento que a Prefeita tanto se orgulha terá um custo elevado para resultar em péssimas condições de vida para 385 famílias carentes. O mesmo investimento público, se utilizado para complementar o investimento privado com a finalidade de viabilizar um empreendimento como o que proponho, resultaria em excelentes condições de vida para, pelo menos, 600 famílias de diferentes classes sociais, metade delas pelo Programa Minha Casa Minha Vida. E nesse exemplo utilizo índices urbanísticos modestos. Há, também, a possibilidade de realizar esse empreendimento por etapas, quiçá sem o parceiro privado.


Demarquei outros dois terrenos, um a leste do centro (com dimensões aproximadas de 75.000 m2) e outro a norte (com aproximadamente 33.000 m2). Há, ainda, outros não tão próximos do centro. O mesmo modelo, replicado, resolve o déficit habitacional do município, dinamiza a economia, melhora as condições de vida dos novos moradores e da vizinhança, gera justiça social e expulsa especuladores. E ainda tem outro impacto, menos mensurável, mas igualmente certo: reduz a violência. A convivência entre famílias de diferentes níveis econômicos promove o entendimento mútuo, a tolerância e inibe a opulência – totalmente desnecessária. 

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Meu voto para Presidente 2014.

As eleições se aproximam e acho que já é hora de explicar minha posição política, como costumeiramente faço antes de qualquer eleição (mesmo que ninguém tenha pedido, rsrsrs).

Nesse texto, vou escrever exclusivamente sobre a eleição presidencial e em breve o farei para os demais cargos em disputa.


Em primeiríssimo lugar, preciso ser um pouco redundante e explicar que as eleições não são o momento mais importante de nossa prática política cotidiana. Cada um de nós, como ser político, está praticando a política quando realiza suas ações mais comezinhas, práticas. Ao escolher comprar em um hipermercado ou em uma merceria de bairro, ao ir trabalhar de carro ou de bicicleta, ao comer um hambúrguer no fast food ou “bater um comercial”, ao escolher trabalhar por conta própria... os exemplos são incontáveis! Além disso, a prática política para nós, cidadãos comuns, é mais efetiva se participamos de alguma associação, seja de bairro, acadêmica, sindical, cultural e, inclusive, partidária. As eleições são apenas um momento no qual participamos (bem de longe) na escolha do modelo de sociedade que defendemos.

Preliminarmente, também é preciso destacar que as eleições brasileiras tem um modelo fundamentado na propaganda e no marketing. Sua escolha não é totalmente livre, mesmo se você se sinta bem informado. A maioria dos candidatos discursam segundo orientações de marqueteiros, utilizam o conhecimento de retórica e oratória e não exatamente dizem ou prometem o que realmente vão fazer. Pior ainda: para conseguir ter acesso a essa produção toda, é preciso de muito dinheiro. Então os candidatos recolhem esse dinheiro com empresas privadas. Certamente essas empresas privadas não são “boazinhas” e doam esse dinheiro apenas pelo bem da democracia. As empresas privadas almejam unicamente o lucro e gastar dinheiro sem perspectiva de retorno é algo que elas não fazem. Então podemos imaginar o tipo de compromisso que os candidatos tem com essas empresas doadoras.

Em segundo lugar, não será possível, aqui, analisar cuidadosamente os programas degoverno de cada candidato, pelo espaço que pretendo ocupar. E também porque, afinal de contas, alguns deles já disseram o suficiente para que eu não perca meu tempo lendo propostas com as quais eu não concordo em nada! Mas certamente levarei em consideração algumas linhas gerais dos programas que li, dos candidatos que valem a pena a leitura.

Em 2014, meu voto para presidente será em LUCIANA GENRO. A candidata do PSOL, partido do recentemente falecido Plínio de Arruda Sampaio, melhor representa minha visão de mundo, além de ter um dos melhores programas de governo, ter uma reputação ilibada e realizar uma campanha barata, sem compromissos com empresas de quiasquer tipos.

Representa minha visão de mundo, pois é uma candidatura de esquerda, que acredita em diretos iguais para todos seres humanos, combate o racismo, o sexismo, a homofobia, a exploração do ser humano pelo ser humano. É uma candidatura socialista, não revolucionária, mas comprometida com o povo e sua educação. Nesse ponto, destaco que a candidatura propõe coibir o repasse de verbas públicas para instituições privadas, ampliando, portanto, o acesso às instituições públicas até a universalização do ensino. No mundo dos sonhos da minha cabeça, vejo um povo educado, interessado e altruísta, que parte democraticamente para um mundo comunista. E tudo começa na universalização do ensino e na valorização de outras coisas que não sejam o consumismo desenfreado.

O programa de governo é excelente, explica como realizar as grandes intervenções estruturais que o Brasil necessita, tendo como base a auditoria da dívida pública – que só beneficia uma pequena elite e bancos nacionais e internacionais – além de implantar um sistema de controle de capitais, impedindo que o país possa ser devastado em um “crack”, como a Argentina nos anos 90 ou os EUA no fim dos anos 20. Insere na pauta o imposto sobre grandes fortunas, que mais ninguém tem a coragem de assumir. Há várias outras propostas sobre economia e gestão, sendo que concordo com todas! Essa “gestão” da economia tem uma finalidade: promover a justiça social e ampliar os direitos a toda a população brasileira. Isso obviamente não é um sonho, é plenamente possível. Só não aconteceu até hoje por causa da acumulação brutal em mãos de uma pequena elite, que, por sua vez, controla também o sistema político. A reconstrução desse sistema política é um dos eixos do programa de governo, que se remete ao junho/2013 para valorizar a democracia direta e dar controle social às instituições.


Além disso, a candidata tem reputação ilibada: foi expulsa do PT quando deputada federal, justamente por defender os direitos adquiridos dos trabalhadores brasileiros, quando houve a reforma da previdência (que, aliás, será revogada pela Luciana Presidente). Aliás, Luciana é advogada e professora de inglês, além de ter frequentado a câmara federal em duas legislaturas. Sua campanha custará no máximo 400 mil reais, doados apenas por pessoas físicas e pela militância. Quando garoto, lembro-me muito bem da eleição para Prefeito de São Paulo, com os candidatos Paulo Maluf e Eduardo Suplicy. Mesmo garoto (uns treze anos), ficava impressionado em ver a diferença: a militância do Maluf ia por causa dos 30 mangos (sei lá o valor, é só uma referência) e o lanche, enquanto a militância do PT ia por amor à causa! Eram os bons tempos do PT, obviamente. Hoje vejo isso nos olhos da militância do PSOL. Eles acreditam no que fazem, se desdobram – e agora já estão escolados com a história do PT, então esperamos que o Partido continue horizontal.



Explicado meu voto, parto para explicar porque NÃO VOTO em alguns candidatos. Mesmo que seja óbvio em alguns casos.

Levy Fidélix é um político de direita, que defende um partido pequeno. Jornalista e ex-assessor de comunicação de Fernando Collor de Melo. Pesquisando sobre essa figura na internet, as coisas não batem. Vive do quê? Faz exatamente o quê? Como se afirma especialista em mobilidade urbana se jamais fez um curso na área? Se diz de “direita”. Em seu site há um link para um tal de “Partido Militar Brasileiro”, que seria a solução para “endireitar o Brasil”. Em resumo: uma figura ridiculamente folclórica, que só pode estar galhofando da gente. Mas o pior é o seguinte: sua campanha tem limite de gastos de 12 milhões de reais. Tem cheiro e gosto de lavagem de dinheiro. Em outras palavras: sua candidatura não é apenas um gracejo de direita, mas pode ser, também, uma máquina de lavar dinheiro sujo, de origem no submundo do crime.

Pastor Everaldo é outro político de direita, apoiado por partido pequeno. Além de pastor, foi funcionário do setor de Seguros do Banco do Brasil e se apresenta ao TSE como empresário. Estudou Ciências Atuariais ou Economia (não sei qual a fonte certa). Sem querer entrar no mérito exclusivamente religioso, o candidato faz parte do crescente grupo político ligado às igrejas evangélicas (ou neopentecostais, como quiserem). Hoje dividido em vários blocos, esse grupo é numeroso no Congresso e ensaia um aparecimento de grande porte nas eleições majoritárias, com essa candidatura “teste” do Pastor Everaldo. Caso estivessem unidos e possuíssem um candidato realmente qualificado, em termos de postura pública e midiática (e não uma figura nojenta, capaz de flatular em uma entrevista de transmissão nacional), certamente teria chances significativas de ir ao segundo turno. Obviamente isso seria terrível para o Estado laico que o Brasil deveria ser (e tenta ser, pelo menos). A história de guerras causada pela relação entre política de Estado e religião prova que esse é um caminho a ser fortemente combatido. E no caso desse candidato, profundamente identificado com a direita, com a privatização no mais alto grau, esse combate deve ser realizado sem dó nem piedade. Que receba TRAÇO nessas eleições e que não repitam essa aventura de lançar candidato aos cargos majoritários. Outro detalhe que não pode ser ignorado: as despesas de sua campanha estão previstas em 50 milhões de reais! De onde vem essa grana?

Eymael é o terceiro político de direita, de partido pequeno, candidato a essa eleição. Aliás, mais uma! É sua quarta tentativa para Presidente, além de tantas outras derrotas em outros pleitos. Pra não dizer que sempre perdeu, foi deputado da Assembleia Constituinte, quando teve um trabalho considerado bom pelo DIAP. A “Democracia Cristã”, ideologia que Eymael representa, tem base nos valores morais do cristianismo, na defesa da moral, de valores éticos tradicionais cristãos, do respeito entre os indivíduos e os povos. Trata-se, pois, de conservadorismo social, o que tem aspectos positivos (é contra a miséria, por exemplo), mas muitos aspectos negativos (a liberdade de credo, o direito de minorias, o direito de aborto). Mas a Democracia Cristã, no Brasil, caracteriza-se por ser defensora do liberalismo econômico, que levou o mundo ao estado de injustiças que vivemos hoje. Portanto é uma doutrina anacrônica e contraditória. Eymael é filósofo e advogado, ganha a vida com sua banca de direito tributário (provavelmente vencendo causas contra o Estado, rsrsrs) e tem uma empresa de marketing. É milionário e tem as despesas da campanha limitadas em 25 milhões de reais!

O quarto político de direita que apresento na lista dos NÃO-VOTÁVEIS é o neto de Tancredo, o tal de Aécio Neves, economista de formação. Há muita informação na mídia que o desqualifica como pessoa, por exemplo, sobre seus vícios em drogas ilícitas, sobre seu envolvimento no caso do helicóptero que traficava cocaína de posse dos Perrela em Minas Gerais, sobre seu amor pelo Leblon, mesmo quando ocupa uma cadeira de Senador por outro estado da federação... Esse candidato declara, no site do TSE, que seu apartamento na Avenida Epitácio Pessoa, defronte a Lagoa Rodrigo de Freitas (um dos lugares mais caros do Brasil) tem o valor de R$ 109.000,00. Um verdadeiro escroque! Mas, tudo bem, vamos relevar a personalidade da figura e vamos falar de sua candidatura. O PSDB ficou 8 anos no poder, com Fernando Henrique Cardoso, com uma política única: austeridade e ortodoxia financeira. Sem nenhuma preocupação com a vida cotidiana dos brasileiros empobrecidos, o objetivo do PSDB era simplesmente estabilizar a economia. Quem mais ganhou com isso não foi o povo, certamente. Quem ganhou foram os investidores, que com a estabilidade conseguiram ingressar no Brasil de maneira tranquila e ordenada. É claro que sem essa estabilidade não teria sido possível, dentro do capitalismo, fazer aumentar a taxa de emprego formal e mesmo a arrecadação de impostos, responsável pelos programas sociais que fizeram o sucesso dos governos posteriores. Mas essa estrutura está fundamentada no trânsito de capitais privados estrangeiros, na concentração dos bens e da renda, criando uma pirâmide sócio-econômica absurdamente injusta. O candidato Aécio pretende retomar essa política de austeridade. Ou seja, manejar a taxa de desemprego, arrochar os salários, aumentar a disputa por um trabalho. Em um linguajar bem simples: Aécio governará para os ricos. Sua campanha vai custar absurdos 290 milhões de reais. E sobre seu vice: um traidor vendido, apaixonado pelo poder.

A candidata Maria Osmarina, mais conhecida como Marina, formada em História, atual queridinha da mídia, promove uma confusão ideológica difícil de desvendar. E, provavelmente, o faça de propósito. Em primeiro lugar, sobre a questão do verde, Marina preferiu criar um partido a ficar no PV. Se o PV tem, centralmente, a questão do verde, por que Marina saiu? O que dizer de seu oportunismo, que a moveu para o PSB, quando percebeu que sua candidatura pelo partido que criava poderia ser inviabilizada? A preocupação com o futuro do planeta é essencial, mas é impossível fazê-la de forma dissociada da organização econômica e cultural da sociedade. Nesse ponto, tanto o discurso de Marina quanto o do PV são criticáveis: eles dizem que não importa se é socialismo ou capitalismo, desde que se leve consideração o ambientalismo em qualquer decisão a ser tomada. Oras, isso é um discurso... capitalista! Em outras palavras: há um poder constituído, há uma sociedade injusta, há miseráveis, há pobres e Marina (e serve também para o PV) não estão especialmente preocupados com isso, desde que as decisões sejam tomadas levando-se em consideração a questão ambiental. Adiante escreverei sobre a Luciana Genro, e ali apresentarei um conceito bem mais aceitável de cruzamento entre preocupação ambiental e desenvolvimento humano. Retomando, sobre Marina, podemos então classificá-la como uma candidata que defende o modelo capitalista financista, como existe hoje no Brasil. Suas propostas de governo se assemelham às do PT, igualmente envernizando o discurso de proteção ao sistema existente com programas de combate às mazelas sociais. O que a diferencia, para pior, é que sua campanha e viabilidade política é construída se apoiando em figuras como Neca Setúbal e Guilherme Leal. A primeira é uma das donas do Itaú, e como tal, milionária e partícipe do topo da injusta pirâmide sócio-econômica brasileira. E o segundo é o milionário dono da Natura, aquela empresa que alega ser “sustentável” recolhendo seus produtos em mega-propriedades na Ponta do Abunã, em Rondônia, empregando gente a salários miseráveis e fazendo uma avalanche de propaganda para ganhar a imagem de empresa “bacana”. A comoção social pela morte de Eduardo Campos, além de tudo, a coloca em uma posição meio messiânica, que, somada a sua religiosidade (de católica convertida a evangélica), faz com que o eleitorado vote nela de forma completamente cega. Há de se fazer muito malabarismo intelectual para defender sua candidatura. E tem gente disposta a isso. O que vai acontecer se Marina se eleger? Aparentemente, será uma mistura de FHC e PT, com o controle da economia nas mãos de banqueiros, mas com a continuidade dos programas sociais. Mas, na verdade, é IMPOSSÍVEL prever. Se você está em dúvida, não vote nela. Sua campanha custará 150 milhões de reais.

A candidatura da economista Dilma é relativamente fácil de analisar. Mas a maioria da população brasileira parece não se interessar por uma análise que passe do superficial. Vamos ver: os programas sociais são importantes e ajudam o povo? Sim. Reduziu a miséria e aumentou o emprego formal? Sim. Cumpriu as promessas da última campanha? Mais ou menos, tendendo para o mais. Algo foi feito para controlar os lucros recordes dos bancos? Não. Algo foi feito para promover uma distribuição justa das terras brasileiras? Não. Algumas mudança ESTRUTURAL da sociedade brasileira foi feita? Não. A classe média teve acesso aos produtos de consumo, ao modelo norte-americano que tanto veneram? Sim! Então porque a candidata não aparece com 90% nas pesquisas eleitorais? Porque a elite brasileira é detentora dos meios de comunicação, das terras, dos bancos e da mentalidade dos brasileiros. Da mentalidade, pois forjou-se, ao longo dos séculos, uma naturalização da submissão, de que a população, em geral, não pode participar diretamente da política. Que é preciso ter um “patrão” nos cargos máximos das unidades federativas e da nação. Ou seja, mesmo o governo Dilma tendo sido um governo para os ricos (e em menor medida para a classe média, e em bem menor medida para os pobres), a população em geral não mais concorda com a manutenção de um governo de origem popular. O erro do PT foi não APROFUNDAR as transformações. Ao se associar com partidos da direita em nome da “governabilidade”, passou a se assemelhar a eles. Não se destaca mais como alternativa popular viável, e sim um partido como qualquer outro. Talvez o PT não tenha se dado conta, mas a população já percebeu isso. Suas bases, especialmente nas periferias e no interior dos estados pobres, ainda são muito fortes, mas não se comunicam com a elite dirigente do partido. E a elite dirigente do partido, certamente, não governa para suas bases. Quem quer que tudo continue como está (e infelizmente essa é a maioria), deveria votar nela. Mas muitos não o farão. Quanto a pessoa Dilma, é uma gerentona. Personifica muito bem a fase atual do PT. Se o PT perder, deverá passar por radicais transformações, e eu desejo muito que a ala à esquerda do partido o retome. Há uma história muito bonita, seria um grande desperdício maculá-la. O pior de tudo: a campanha terá gastos de 300 milhões de reais!

O último candidato do bloco dos NÃO VOTÁVEIS é o simpático médico sanitarista Eduardo Jorge, do PV. A história do PV no Brasil é um tanto controversa. A partir de uma preocupação genuína (a devastação do meio ambiente) e de uma experiência estrangeira (a existência de PVs na Europa e Oceania), o partido cresceu razoavelmente, tendo hoje quase 100 prefeitos, 1 senador, 10 deputados federais, entre vários outros cargos e participações em governos. Essas participações raramente são acompanhadas de respeito ao princípio básico do PV: o compromisso em tratar das questões ambientais em todas as decisões tomadas em seu governo. Além disso, o partido flutua ao sabor dos ventos para se associar, aqui e ali, com diferentes faixas do espectro político. É como se não soubesse muito bem como fazer a política que se propõe a fazer. Para não ser injusto, procurei o programa de governo e acabei me surpreendendo positivamente. É um programa coerente com o Brasil de hoje, que mantém as estruturas existentes, mas procura promover um desenvolvimento mais justo e menos danoso ambientalmente. Propõe uma reforma política interessante, incluindo a reformulação do legislativo para um sistema unicameral. As políticas setoriais são bem razoáveis e realistas. O problema principal é confiar em uma partido que também serve como legenda de aluguel e sem compromisso de mudanças estruturais na sociedade brasileira. Em suma, boa intenção, dentro do sistema atual, não é suficiente. Quanto ao candidato Eduardo Jorge, é uma figura aparentemente preparada, de passado socialista, deputado constituinte pelo PT e posições sociais contemporâneas (contra a crimininalização de drogas e aborto, por exemplo). A campanha está orçada em 90 milhões de reais!

A partir de agora, todos os candidatos são “votáveis” e, caso vencessem, certamente a sociedade brasileira passaria por grandes transformações. Alguns mais radicais, outros menos, mas todos comprometidos com a parte de baixo da pirâmide, e não com a parte de cima. Aqui há discussão ideológica, bem acima da discussão “gerencial” de como “tocar” o Estado, como se fosse uma empresa qualquer. Minha recomendação é que o leitor conheça cada um desses candidatos (além da já citada Luciana Genro), suas ideias, e procure ler mais sobre suas concepções do mundo. O nosso “negócio” não é ganhar eleições (mas seria muito bom se isso acontecesse), mas sim discutir qual mundo seria melhor para todos nós e nossos descendentes. A ideia é despertar a curiosidade e o leitor procurar, por sua conta, conhecer mais sobre as ideias que mais se interessar.

Zé Maria é, pela quarta vez, candidato a presidente do Brasil. É metalúrgico, formado pelo SENAI. Seu partido, o PSTU, nasceu do PT. Seus quadros foram expulsos quando apoiaram o movimento “Fora Collor”, contrariando a direção nacional daquele partido. Desde então, firmam-se como partido de esquerda, sem concessões direitistas. Sua campanha não aceita doações de empresas e está limitada em 400 mil reais. Há pontos negativos? Sim, há! Muitas vezes não há qualquer preocupação com o pragmatismo e as propostas são puramente conceituais. Há, também, detalhes ideológicos que devem ser discutidos à parte. Mas, mesmo assim, é um candidato (e um partido) que deve aparecer mais, cujas ideias precisam ser divulgadas. Selecionei três propostas que gosto, a seguir:
a) Romper com a dívida pública (moratória). Tá certo! Hoje o estado brasileiro paga 44% de tudo que arrecada para instituições financeiras e particulares (milionários) que detém títulos da dívida, muitas vezes com origem totalmente duvidosa, ou realizadas em condições completamente prejudiciais para o país!
b) Estatizar o sistema financeiro. Tá certo! Os bancos, no Brasil, são as empresas mais lucrativas, sendo que não produzem nada. E não falo de lucros eticamente aceitáveis, mas de dezenas de bilhões de reais, que são conquistados pegando o SEU dinheiro, conquistado com muito suor, e emprestando para VOCÊ, quando você quer comprar qualquer coisa. Urge modificarmos isso!
c) Redução da jornada de trabalho para 36 horas. Tá certo! O sistema capitalista se fundamenta na exploração do trabalho. Se aumentarmos a quantidade de horas livres para o trabalhador, não modificará em nada a produtividade do país e a sociedade vai avançar como um todo, valorizando a educação, o esporte, as artes, etc.

O jornalista Rui Costa Pimenta é o candidato do PCO. Esse partido classifica essas eleições, nos moldes atuais, como uma farsa burguesa. O que não deixa de ser verdade! As pessoas pensam que estão participando da “festa da democracia”, sendo que sua participação se resume a apertar dois botõezinhos em uma máquina para escolher, entre algumas figuras que aparecem na televisão, um chefe de Estado. Então escolheram participar apenas para ter a chance de divulgar seu programa e suas ideias. No topo de suas preocupações está a necessidade de criar condições para realizar a revolução socialista. Mas há, sim, um programa de governo com propostas voltadas para a população excluída, a enorme massa de trabalhadores, os negros, os índios e todas as comunidades esquecidas e alvo de preconceitos. Há problemas? Sim, há! As posições ideológicas do partido são bem discutíveis, além de seus procedimentos e o sectarismo (nem os militantes se dignam a militar com os demais companheiros socialistas). Entre suas propostas, além das que Zé Maria também defende, acrescente-se, por exemplo, o salário mínimo de R$ 3.500,00 e o imposto único para o capital e grandes fortunas. Mais do que justo! As pessoas não se escandalizam quando um único mega empresário ganha mais de 10 bilhões de reais em um ano, então porque deveriam se escandalizar em um salário mínimo que pagaria, “malemal”, as necessidades básicas para uma vida decente? Logicamente não será possível fazê-lo de uma hora para outra, mas é plenamente viável. Na Austrália esse valor seria de R$ 6.300,00 (lá é contado em horas). Na França é R$ 4.600,00. Na Turquia, pasmem, esse valor é de R$ 2.100,00. Aqui, só pra lembrar, é R$ 724,00. Quanto ao imposto único sobre o capital e grandes fortunas, nada mais justo! O Estado existe para promover a justiça, então tiramos do que tem mais para prover ao que tem menos. Ou então abandonamos essa estrutura e voltamos à barbárie (que é o que os neoliberais de direita parecem desejar).


O professor Mauro Iasi, formado em história, mestre e doutor em socilogia, é o candidato do PCB. O bom e velho partido comunista, em sua versão verdadeira (o tal do PC do B hoje em dia é um pastelão) continua firme na proposta de construção de uma sociedade socialista, porém atualizando esses ideais com base, por exemplo, nos acontecimentos de junho/2013 no Brasil e em outros movimentos populares que pipocaram (ainda pipocam) mundo afora. Seu programa é construído a partir de 5 eixos: um programa anticapitalista para desmercantilizar a vida; a necessidade e a urgência de uma alternativa socialista para ganhar a vida; a construção de um poder popular; garantir e avançar os direitos da classe trabalhadora; o papel do Brasil para um mundo sem guerras imperialistas e sem opressão. Recomendo fortemente que as pessoas leiam esse programa com a mente aberta e sem pré-conceitos. O documento na íntegra está no link a seguir. Seria, certamente, meu candidato, se eu não votasse na Luciana Genro.

Finalmente, concluo observando que esse texto tem quase seis páginas tamanho A4, com espaçamento normal entre as linhas. E é apenas uma justificativa resumida do meu voto, que perpassa esses temas e outras preocupações e - para quem quiser conversar mais longamente sobre o assunto - ainda carrega alguma insegurança. Ficaria muito feliz se todas as pessoas tivessem a mesma preocupação com uma decisão de tal importância. E, mais ainda, se cada pessoa dedicasse uma parcela de seu tempo para pensar (e agir) na coletividade - política nada mais é do que isso.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Ciclo de Debates - Território e Intervenção

Do interesse de arquitetos, militantes pela reforma urbana e pessoas em geral que vivem em cidades.
O encontro seguinte acontecerá no dia 25/09.
Vamos construir cidades mais humanas!


segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Aula Magna, Paulo Mendes da Rocha em São Carlos


Prêmio Pritzker em 2006, arquiteto, professor e militante.
Dia 21/08/2014, às 19:00, no Teatro Municipal de São Carlos.
Rua Sete de Setembro 1735
(16) 3371-4339

Literatura recomendada: http://editora.cosacnaify.com.br/Autor/362/Paulo-Mendes-da-Rocha.aspx

domingo, 15 de junho de 2014

Uma simplificação da sociedade contemporânea


Pensando nas eleições do final de 2014, refletindo sobre como simplificar a análise da sociedade brasileira contemporânea em face dessas eleições, vejo três grupos principais: dois de oposição e um de situação.

Há uma oposição de esquerda, com a qual me identifico, que não concorda com o atual governo pois esse não modificou as estruturas sociais e econômicas do país. Quem continua mandando aqui é o poder do capital, principalmente os bancos, as grandes empreiteiras e os patrimonialistas ruralistas. Esse grupo de oposição reconhece os avanços sociais, no sentido que a pobreza reduziu muito e a fome praticamente não existe mais no país. Mas não concorda com a militarização da gestão pública, nem com o papel irrelevante que o povo tem no cotidiano do governo. Infelizmente esse grupo não tem voz na mídia: nosso meio de comunicação é a mídia alternativa, principalmente por meio da internet, que é barata. E por esse motivo que sempre uso veículos desse tipo para embasar meus discursos. Eles tem a mesma formação política que a minha.


O grupo de situação apoia o governo, pois entende que as forças que dominam o país são tão grandes que não basta ter o poder do Estado para enfrentá-las. Lógico que eu não concordo. A favor dessa opinião está a estatística: a pobreza reduziu muito e a fome praticamente acabou no país. Nos últimos 12 anos as universidades públicas federais mais que dobraram. O índice de escolaridade do brasileiro aumentou, etc. Claro que nesse grupo há muita gente que depende das políticas sociais, mas é preciso entender: os pobres foram abandonados nos últimos 500 anos, então defenderão uma política "nova" que os ajude.

Finalmente há o outro grupo de oposição, que julgo muito difícil de compreender. Aqui está a elite e seus puxa-sacos, gente de classe média que acredita infantilmente que um dia também poderá fazer parte da elite... Usam argumentos paupérrimos, como esse aí da corrupção. Discurso pobre, porque é usado só contra um lado e não contra o outro (quando a roubalheira é no governo paulista o silêncio é sepulcral). Lógico que a corrupção deve ser combatida, mas isso em todos os aspectos da vida: não dá pra furar fila, ficar com o troco errado, pagar pra ter "vantagens" em serviços públicos e clamar pelo fim da corrupção no Estado. Esse grupo de oposição é medroso, pois defende pequenas vantagens ou exclusividades que a classe média tem (ou tinha). Reclamam de filas nos aeroportos, querem padrão de consumo padrão europeu, querem gastar na Louis Vitton ou na Tiffany's. Mas o pior é que dentro desse grupo há uma parcela radical. Essa parcela radical é racista, homofóbica, fascista. É só ler o nível de estupidez dos seus mentores: gente como Reinaldo Azevedo, Olavo de Carvalho, Roger Moreira e outros imbecis desse porte. Para eles, só a ditadura salva. Querem mesmo que pobre tome porrada, etc. Na europa esse grupo já é representativo nas eleições, chegaram até a ganhar o governo da Áustria. Essa gente precisa ser combatida.

Esse texto é propositalmente simplificado, mas dá pra esticar bastante isso aí. Mas dentro dessa simplificação cabe quase qualquer tipo de pensamento. Eu sei muito bem o lado que estou. E vocês?