Peço desculpas aos leitores pelas poucas atualizações recentes. Além do ritmo mais pesado no trabalho, estou me concentrando na preparação para as férias. Aliás, essas férias vão render alguns posts, pois algumas cidades muito interessantes serão visitadas: Lima, Arequipa, Cuzco, por exemplo.
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Esse post é para apresentar dois "grupos" que atuam no limite entre a informação, a arte e a política.
O "Projeto Luther Blisset" é uma tentativa de derrubar as personalidades que estão por trás de um texto literário. Foi formado por um grupo de escritores italianos que pretendiam escrever quase anonimamente. Ao recusar o "estrelato" de autor há - automaticamente - uma crítica a toda a estrutura editorial existente, incluindo a crítica literária formal, os jornais e revistas, as editoras e - principalmente - os lançamentos "blockbusters". Em outras palavras: vender muito apenas pelo nome escrito no cabeçalho.
Como é o procedimento para isso? Simples. Todos os textos são assinados por um escritor fictício denominado "Luther Blisset". Nas palavras de um dos fundadores do grupo, Luther Blisset era um "Robin Hood da Internet". O grupo foi fundado em 1994 e foi crescendo progressivamente até 2000, quando os fundadores se retiraram do projeto e partiram para o "Wu Ming". Abaixo escrevo um pouco sobre esse outro projeto.
Com a retirada dos fundadores, o projeto Luther Blisset deixa de ser simplesmente um projeto e passa a ser um nome geral, pronto, edificado, em edificação e edificante. Qualquer um escreve sob o pseudônimo Luther Blisset e é bem possível que você, caro(a) leitor(a), já tenha lido algo assim (exemplo). E talvez nem tenha se dado conta. Luther Blisset somos todos nós.
A partir daí, a existência política de um Luther Blisset coletivo foi um passo. Na internet, na mídia e em qualquer lugar onde haja informação rápida, Luther Blisset já fez das suas. Tornou-se um símbolo, confundido com os anarquistas e os situacionistas (esses vínculos não são e nem poderiam ser oficiais, portanto é preciso cuidado com essa vinculação).
Em outras artes há alguma influência de Luther Blisset. Sei da existência de pelo menos três grupos musicais com esse nome (dois italianos). Suponho que nas artes gráficas também existam manifestações afins.
E na arquitetura? Seria possível incorporar conceitos desse tipo?
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O arquiteto e professor Sérgio Ferro escreveu um livro chamado "O Canteiro e o Desenho: Arquitetura e o Trabalho Livre", na década de 1970. Nesse livro tenta demonstrar que o projeto é instrumento de poder e que o mesmo deve ser compartilhado, ou seja, dividido com os outros integrantes de um processo construtivo (operários, por exemplo). Mais que isso, considera toda a indústria da construção civil em um dos pilares desse capitalismo opressor sob o qual vivemos, onde há todo tipo de controle do homem sobre o homem, como por exemplo o trabalho remunerado (quase uma nova forma de escravidão). Professor Sérgio Ferro estava muito a frente de seu tempo...
Imaginem um projeto onde o arquiteto é Luther Blisset. Não há preocupação com a autoria, com o "traço do autor", que tanto é reforçado nas faculdades e aulas de projeto arquitetônico. Qual seria o resultado? Algo totalmente incorporado à paisagem? Algo totalmente incorporado à sociedade? Algo com baixa qualidade técnica e construtiva?
É um exercício importante pensar nesse processo. Um exercício importante e necessário.
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Agora é preciso apresentar o "Wu Ming". Esse nome, em chinês, pode significar "anônimo" ou "cinco faces" e é o grupo atual dos fundadores do Projeto Luther Blisset. É fortemente recomendado conhecer seu site / blog. Esses autores permanecem em sua atividade: escrevendo livros de ficção, mas com quase todos os princípios iniciais: a negação ao poder da autoria (Wu Ming é um nome compartilhado), a probição de divulgação de fotos ou vídeos, o copyleft, etc. Mas há uma diferença grande: Wu Ming é compartilhado, mas não é aberto. Segundo um dos integrantes, escrever ficção não é algo "simples", portanto é preciso ter controle do processo.
Bingo.
...Se existisse o Arquiteto Luther Blisset, em algum momento ele teria que mudar seu nome para Wu Ming. Na arquitetura há a mesma complexidade que se dá no processo de escrita de uma ficção: são inúmeras variáveis cuja distribuição (ou adoção de solução) dependem exclusivamente daquele que tomou a decisão - naquele momento específico!
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Para completar, preciso deixar alguns links.
Aqui, há uma entrevista que explica boa parte dos assuntos acima discutidos.
Aqui, uma entrevista esclarecedora com Sérgio Ferro (Google Docs).
Aqui, finalmente, uma entrevista com Henri Lefebvre, discutindo sobre a Internacional Situacionista. Breve publicarei outro post, parecido, sobre o trabalho e o não-trabalho.
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