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terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Do futebol

Como todos que me conhecem sabem, sou torcedor fervoroso do Santos FC. E por esse motivo, entre 2002 e 2004, imaginei que a geopolítica do futebol poderia sofrer uma inclinação, talvez um pouco menos, ou seja, apenas um "contra-peso" a favor da América Latina, quando o Santos FC revelou e manteve Robinho em seus quadros. Esse jogador poderia ter se tornado o melhor jogador do mundo atuando em campos brasileiros, imaginando a proximidade da Copa de 2006, a qual o Brasil poderia (ou deveria?) ter realizado melhor papel.
São outros tempos.
Anos depois, surgiu, nessa mesma casa, uma nova dupla com um novo "crack" da bola: Neymar. Hoje, com a ascensão da economia brasileira e o desenvolvimento regional do marketing esportivo, o referido "crack" tornou-se não apenas o melhor jogador em atividade no Brasil, mas uma personalidade midiática de primeira grandeza.
Portanto, a permanência dessa estrela no futebol brasileiro deveria ser motivo para que eu acreditasse nessa inclinação da geopolítica do futebol para os lados da América Latina.
Mas não é possível.
Por outro motivo: o futebol está vivendo um momento de transformação. Deixou de ser o esporte dos homens toscos e vulgares, para se tornar um jogo de altíssima complexidade intelectual, com variáveis antes desprezadas. Um esporte no qual ser "crack" é ótimo, dá espetáculo, mas ser coletivo é mais. É mais e mesmo assim é só o começo.
No texto abaixo, o filósofo português Manuel Sérgio explica com mais desenvoltura a transformação do jogo.
A mim, como torcedor inculto e acostumado com a vulgaridade do futebol brasileiro, resta apreciar o desempenho dos "cracks" santistas nos campeonatos dentro de nossas fronteiras. Porque se continuar assim, brevemente estaremos fora do grupo dos "dez mais" do futebol internacional.


PS de torcedor: a paixão clubística transcende o "vencer" ou "perder". É algo inerente a nossa criação, anterior a formação intelectual e - de repente - anterior também a formação do caráter. Portanto continuarei santista eternamente, mesmo que um dia se prove cabalmente os malefícios do futebol enquanto representação da sociedade.

5 comentários:

  1. O "sonho" da transferência do domínio geopolítico do futebol da Europa para a sudamérica é realmente muito bonito e, se alguém tivesse que fazê-lo, realmente seria mais bonitinho em respeito a história deste mesmo futebol que fosse o seu time, já que nos anos 60 foi o que chegou mais perto disto (viu como não sou um radical sectário?hahaha). Mas o que aconteceu domingo foi paradigmático, delimitou-se definitivamente uma fronteira que deixa bem claro onde "nós" estamos e onde "eles" estão. A impressão que ficou no final era que o santos não passava de um circo de uma cidade interiorana qualquer que se acha a melhor do mundo simplesmente por falta de referência e conhecimento do que acontece no mundo afora. Confrontar-se com o Barcelona daquela maneira foi como se este mesmo cirquinho de uma cidadezinha qualquer, de repente medisse forças com o CIRQUE DU SOLEIL!!!!....e foi exatamente o que aconteceu, todos nós brasileiros pagamos de uns caipiras e jecas, desde as declarações toscas do treineiro brasileiro até a ridicula apresentação em campo. Mas isto é o de menos. O santos não foi o único derrotado, foi apenas o símbolo de como estamos atrás no futebol por pura prepotência e cretinice. As declarações do treinador catalão são a síntese disto: perguntado se estavam "revolucionando" o futebol, ele foi muito simples e elegante em sua resposta...simplesmente disse que sua equipe fazia o mesmo que os brasileiros sempre fizeram, segundo seus pais e avós lhe diziam (o que é verdade, pois o Pepe foi seu treinador em seu final de carreira na Arábia e disse que o Guardiola passava mais tempo perguntando como era a organização tática do santos dos anos 60 do que propriamente treinando). Mas insisto que a questão é mais profunda. Enquanto desde a derrota em 82 fomos lentamente nos metamorfoseando em uma cópia tosca e ruim do catenaccio italiano, com seus 3 zagueiros, retrancas e bolas na área (especialidade do treineiro santista), intercalados pelo surgimento de um ou outro grande jogador, como Ronaldo, Romário ou Rivaldo, os barcelonistas resolveram criar uma ESCOLA de futebol, baseada na mítica seleção holandesa de 74...tanto que Rinus Michel, Cruyff e outros craques daquele time jogaram pelo Barça nos anos 70...de lá para cá muitos outros holandeses passaram pelo time e pelo comando técnico da equipe, em um processo constante de aprimoramento deste estilo, que aliás é mais que um estilo, é uma CONCEPÇÃO de jogo muito mais importante do que meros resultados ou um outro titulozinho ali para tirar sarro dos rivais...a escola azul-grená de futebol levou 35 anos aprimorando um estilo de jogo (além da CONCEPÇÃO de como este jogo deve ser jogado) para atingir o auge máximo agora...hoje, o Barcelona é sem dúvida uma das maiores equipes de todos os tempos, praticamente invencível mesmo dentro da Europa...quanto ao Brasil, pelo jeito continuaremos com nossos treinadores retranqueiros com salários de 700 mil por mês, com seus 3 zagueiros, volantes, bolas alçadas na área e nossa prepotência típica de "pentacampeões" do mundo, enquanto o Barcelona desfila o verdadeiro futebol que um dia foi o brasileiro pelos gramados do mundo....

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  2. fabricio essa "inclinação" latino americana ainda está por vir. não se pode tomar como constataçao um mero jogo de mundial onde o gigante estrupou um anão num resultado que ja era previsivel.
    o fator conjunto do barcelona é algo de décadas de trabalho e nao apenas sorte e nem "raios" que caem no camp nou. nao há desmanches. há continuidade de trabalho. filosofias concretas.
    ainda está por vir aqui mesmo no brasil times assim. mas não agora. talvez amanhã.
    a questão é a economia. com a baixa da moeda na europa, times europeus irão perder seu poder progressivamente e consequentemente, seu poder de compra.
    e enfim, creio fervorosamente que o cenário irá mudar daqui uns 7 ou 8 anos. período pós copa do mundo.
    nao querendo agradar as massas, mas já afirmo que os maiores beneficiados nesse periodo serão corinthians e flamengo. times do povo. times que serão os polos do futebol. (voltando a discussão do grande sonho da globo e cbf em tornar o campeonato brasileiro algo como o espanhol, onde há dois gigantes revezando os titulos e o resto lixo)

    mas enfim, fato é que no brasil já tem uma enxurrada de jogadores da costa oeste da america latina com contrato em todas as divisões do futebol brasileiro inclusive da série D. chega a ter time com 6 estrangeiros. isso irá aumentar cada vez mais.
    é incomparável o que um bom jogador ganha no Brasil em relação aos outros países da língua espanhola. tipo coisa do triplo pra cima. argentinos, chilenos, paraguaios, todos os melhores deles, estão migrando pra cá gradativamente.

    com relação a manutençao das estrelas, o senhor caro presidente do santos é um louco, ou pelo menos visionário. o pensamento dele segurar o neymar, com um salário atual que beira os 1,3 milhões de reais, com prêmios semestrais, anuais, por competição e percentual de aumento anual, claro que pode fazer o moleque ficar até o final do contrato. muito mais comodo pro moleque. ganhando salario "europeu" no quintal de casa.

    mas enfim, quando falo que ele é um visionário, penso na questão do crescimento do campeonato nacional. o investimento e propagação midiático, pois fazendo isso ele irá valorizar o futebol brasileiro. algo como o andrés fez com o ronaldo. as pessoas irão gastar mais no esporte. irão aos estádios para ver craques ou pseudo-craques que ultrapassaram o status de jogador, e agora são reconhecidos como celebridades nacionais.
    esse é o segredo. o brasil tem que aproveitar o boom da economia e ligar as turbinas pra decolar.. mercado e gente pra gastar tem. e como tem.

    logo, caros mortais, ja digo que se começar a rolar pré temporadas de grandes equipes européias no Brasil, daqui alguns anos, não será milagre. jogadores medianos de uma itália ou espanha da vida vindo fazer carreira em solo indígena como fez o petkovic quando fugiu da guerra, pode ser que aconteça. seila...

    é tudo uma questao de dinheiro em caixa. pagar mais que o concorrente.

    outro campeonato que dizem que irá começar a colocar as patinhas de fora é o indiano. e o chines. mas enfim, de todos os países que são considerados emergentes ou futuras forças financeiras, o único que tem matéria humana de qualidade é o Brasil. e esse é o grande diferencial que teremos, pra no futuro, dominar esta porra novamente.

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  3. Renks, observe que o Barcelona, especificamente, está se preparando para essa mudança de patamar financeiro. Com a adoção desse estilo de jogo diferente, pode se manter como um grande time mesmo que perca algumas peças importantes. Claro que deixaria de ser o time "sobrenatural" que é hoje, mas ainda assim apresentaria um futebol vistoso e altamente competitivo. Como é a equipe B que algumas vezes se apresenta por aí.

    No papel, o Santos FC não está tãããão abaixo assim, a ponto de ser "estuprado", como você piadisticamente escreveu. Sim, mesmo no papel são melhores, um pouco melhores. Mas a diferença tática é gigantesca. O Rafael pescou bem essa ideia.

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  4. A questão não é nem grana e nem o Barcelona ser um "pouquinho" melhor...isto é absurdo, o Barcelona não é pouquinho melhor, é MUITO melhor que todos inclusive na Europa...e o é por uma questão de FILOSOFIA de um jogo bonito e bem jogado, onde desde a categoria infantil a molecada é treinada para jogar exatamente como o time principal...o que quebra a idéia de que dinheiro seja o diferencial...Não adiantará nada o futebol brasileiro dispor de uma baita grana se cartolas imbecis e demagogos continuarem pagando rios de dinheiro para retranqueiros toscos como muricy e afins...o nível do futebol brasileiro é fraquíssimo e tenho certeza que nas últimas noites o Neymar (que é o único realmente diferenciado) deve ter se perguntado muito se vale a pena para a CARREIRA dele ficar aqui (mesmo ganhando mais dinheiro do que ganharia lá e sendo paparicado) ou ir para a Europa, mais especificamente ao Barcelona, jogar com os melhores....ora, no Barcelona o jogo coletivo é mais importante que as individualidades (mais um dos efeitos da sua ESCOLA de jogo) e a prova disso é que quando o Messi vai para a seleção argentina não faz o mesmo que apronta no camp nou...e que a seleção espanhola, sem o Messi, toca, toca, toca, toca e é um parto para sair um golzinho!...nesta concepção de futebol, o coletivo faz a individualidade sobressair-se, este é o segredo...enquanto isso, continuaremos com nosso emocionante (apenas e tão somente por ser o único campeonato nacional do mundo com 12 times grandes) e niveladissimo por baixo campeonato brasileiro, com seus "pofexores", "pojetos", retrancas e bolas alçadas na área.

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