Saiu no jornal da cidade (O Movimento) uma notícia curiosa e perigosa, referente ao perímetro urbano do município. A Prefeitura defende um Projeto de Lei ampliando o perímetro urbano para além da Rodovia Anhanguera, a fim de criar áreas industriais, onde possam se estabelecer indústrias de todos os portes, inclusive indústrias poluentes.
Antes de opinar, algumas considerações a respeito da cidade.
Das áreas industriais
Pirassununga se situa do lado direito da rodovia Anhanguera, no sentido de quem se dirige para o interior. Não é uma cidade seccionada pela rodovia, como Araras, Leme e, em menor grau, Porto Ferreira. Observando-se com cuidado, a única área da cidade que não é efetivamente contínua é o Jardim Santa Fé, situado a alguns quilômetros de distância, mais próximo do Distrito de Cachoeira de Emas. A "Zona Norte", composta por alguns bairros populares, está interligada ao resto da cidade por apenas duas pontes, já que há um ribeirão que a delimita. Mas, mesmo assim, está muito próxima do centro (a distância máxima entre o limite da zona norte e a praça central é pouco superior a 4 quilômetros). Há loteamentos novos na zona norte, pouco ou nada ocupados. A ocupação é essencialmente residencial, de padrão popular. Os limites para ocupação na zona norte são o campus da USP, o aterro sanitário e a rodovia de Cachoeira de Emas.
Entre o centro de Pirassununga e a rodovia Anhanguera ainda há algumas poucas áreas não loteadas, todas já cercadas de infraestrutura. No sentido sul, antes da rodovia SP-225, que também delimita a área urbana da cidade, igualmente há poucas áreas não loteadas. No sentido leste a cidade praticamente abraça o enorme terreno do Exército, que está no centro da cidade. Com a exceção desse terreno, há vastas áreas para ampliação da cidade - mas não tão próximas das rodovias.
As áreas industriais atuais, que segundo a Prefeitura estão praticamente ocupadas, são: o Pólo Industrial, no limite sul, junto ao aeroclube; o Distrito Industrial, junto a Anhanguera, mas contígua a cidade; uma área do outro lado da Rodovia, numa faixa linear de duzentos metros de distância a partir da própria rodovia.
As áreas industriais existentes são muito adequadas para a finalidade, próximas às rodovias, separadas das áreas residenciais, mas próximas o suficiente para serem bem atendidas por transporte público (o que não vem acontecendo, mas isso é problema para outro post).
Estou sem editor de imagens, mas é possível identificar as três áreas industriais: do lado direito do aeroclube (ao sul, próximo da Rod. Dep. Cyro Albuquerque SP-225), do lado direito da Anhanguera (próximo da esquina com a Avenida Germano Dix) e as áreas do lado esquerdo da Anhanguera.
Das indústrias instaladas
Pirassununga sedia duas empresas enormes, poluentes. Empresas que lançam toneladas de partículas na atmosfera, com péssima aparência, péssimos odores e que promovem o trânsito de caminhões bi-articulados (os bi-trens ou outros nomes mais técnicos) por alguns eixos intra-urbanos. São elas: a Companhia Muller e a Usina Baldin. A despeito de gerarem muitos empregos (seria interessante conhecer a qualidade desses empregos), impostos (seria interessante verificar quanto retorna para o município) e alguns negócios da cadeia produtiva (imagino que não muitos), são beneficiadas por estarem fora da área urbana e portanto não pagarem IPTU. Me parece algo equivocado, já que seus veículos utilizam as vias urbanas e sua poluição atinge em cheio a área urbanizada.
Companhia Muller de Bebidas.
Para a cidade, não sei se é uma boa ideia ter o nome vinculado a uma marca de cachaça (das ruins).
As outras indústrias instaladas no município são de porte muito menor. Há algumas empresas de materiais para dentistas, que praticamente configuram um pólo (e poderiam configurar um arranjo produtivo local, o famoso APL, se é que já não configuram). Há empresas de rações para animais - o que é muito interessante, já que a USP tem cursos de Zootecnia e Medicina Veterinária no campus local. E há empresas de serviço local e regional, como construtoras, fabricantes de estruturas de aço, beneficiadoras de alimentos, fábrica de cadernos, etc.
Das alternativas existentes
A cidade é sede de instituições de primeira ordem, como a Academia da Força Aérea (AFA, que é sediada na zona rural e possui uma "vida própria", além da famosa Esquadrilha da Fumaça); a Universidade de São Paulo, cujo campus está em constante expansão; o CEPTA/IBAMA; o já citado 13º Batalhão Mecanizado do Exército, entre outras.
Possui uma história cultural com certa relevância, terra de Cacilda Becker e Cleyde Yáconis, sede da Semana Nenete de Cultura Caipira, terra de vários agitadores culturais da geração MTV que ainda estão por aí fazendo alarde.
É a 39º melhor cidade do Brasil, medido pelo IDH-M.
Universidade de São Paulo - Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos
O centro comercial, característico de cidade do interior, é vibrante, forte, atrai moradores de algumas cidades vizinhas. Com um pouco mais de organização pode se tornar um "shopping ao céu aberto" (e sobre isso em breve escreverei mais). É bi-polarizado, com o centro tradicional sediando as lojas famosas (Casas Bahia, Americanas, Pernambucanas, Luiza, Cem, São Jorge, Cybelar, Colombo, os bancos, etc) e a Avenida Newton Prado, que sedia lojas locais, distribuidoras de moda, etc.
Possui uma noite que, se não chega a atrair músicos famosos, pelo menos é um pólo regional, atraindo moradores até de cidades maiores. Há várias choperias excelentes, casas com música ao vivo e alguns (poucos) restaurantes dignos de nota.
A Universidade de São Paulo possui quatro cursos de graduação na cidade: Zootecnia, Engenharia de Alimentos, Engenharia de Biossistemas e Medicina Veterinária, sendo que esses dois últimos ainda não possuem turmas formadas. Parte desses egressos, mantidos na cidade, podem vir a formar uma forte cadeia produtiva. Há cinco programas de pós-graduação, inclusive de Mestrado Profissional, voltado para o mercado. Desses, apenas dois já possuem formados.
Além da USP, a cidade possui cursos universitários de Administração, Ciência da Computação, Matemática e Pedagogia, na FATECE; Engenharia Mecânica e de Produção Mecânica, Ciências Contábeis e Letras, na UniAnhanguera e um tradicional curso de Engenharia de Agrimensura, na Faculdade de Engenharia de Agrimensura de Pirassununga. Há também uma ETEC, uma unidade do SESI e uma escola técnica particular.
Fiz esse levantamento, "de cabeça", sem consultar dados, apenas para provar que há, sim, alternativas à expansão industrial.
Da cidade que temos
Uma cidade do interior com setenta mil habitantes não é, obviamente, uma cidade grande. Sequer é uma cidade média. A existência de inúmeros pedágios enfraquece a formação de uma centralidade. Por exemplo, entre Porto Ferreira e Pirassununga há apenas 15 quilômetros, mas incríveis R$12,40 de pedágio (ida e volta).
Considerando, então, que Pirassununga é uma cidade pequena, podemos verificar um potencial para grande qualidade de vida aqui. O tempo é ótimo, quente na maior parte do ano, sem grandes precipitações. Está há 100 quilômetros das duas maiores cidades do interior: Ribeirão Preto e Campinas, ambas servidas por aeroportos. A rodovia Anhanguera é duplicada, com duas a três faixas de rolamento em cada sentido: mais que suficiente.
O terreno é praticamente plano, com pequenas inclinações nos fundos de vale. A densidade do sistema viário da cidade é suficiente. A área ocupada é razoavelmente compacta, com poucos vazios urbanos. Circular é fácil e intuitivo (apesar do transporte público ruim).
Não há favelas, apesar de notar que ainda há habitações em condição sub-normal (especialmente no citado Jardim Santa Fé, afastado da cidade). Há escolas, postos de saúde, centro de especialidades médicas, instituições de ajuda consolidadas (Santa Casa, APAE, AMMA), praças em vários bairros, um centro esportivo bem grande, etc...
Há três eixos viários principais, com características que os diferem, mas todos com grande potencial paisagístico (no meu entender, pouco aproveitados): a Avenida Newton Prado; o antigo eixo ferroviário e a avenida de fundo de vale (Avenida Painguás).
A população é heterogênea, com jovens em profusão: se misturam os jovens da cidade, os estudantes de fora que vem para a USP e os jovens da AFA. Os idosos são bem articulados. As famílias são arraigadas e tem identidade com a terra (e organizam a Festa Itália, por exemplo).
Mas há de citar a parte negativa, também.
O problema de segurança é algo que extrapola os limites do município, uma situação da economia e sociedade pós-moderna que o Brasil vive. Ainda assim, obviamente, é uma cidade mais segura que as capitais e as grandes cidades do interior.
Há críticas com relação à falta de empregos. E daí vem a preocupação da Prefeitura em trazer as grandes indústrias. Mas é preciso ter em mente que a qualificação dos desempregados e sub-empregados é baixa. O setor de comércio e serviços vem absorvendo essa mão de obra e remunerando mal. As grandes indústrias trarão dois tipos de emprego: os qualificados - que provavelmente virão de fora - e o "chão de fábrica", que igualmente remunera mal. E seguirá o desemprego, com o agravante do crescimento da cidade, o que traz mais dificuldades para manter a qualidade de vida da população. Além disso, o anúncio da chegada de uma grande indústria motiva migrações, o que não é desejável - tanto do ponto de vista de quem vive aqui e vai concorrer a uma vaga com mais concorrentes, quanto para o migrante, que precisa de adequar a uma nova cidade, um lugar desconhecido e sem a certeza do sucesso.
Da cidade que queremos
O que o povo de Pirassununga quer?
Quer que a cidade cresça, tenha um parque industrial forte e vibrante, com os prós e contras que isso traz junto? Que as características culturais e cotidianas possam se dinamizar ou atualizar?
Nesse caso, é preciso prever que o centro comercial não dará mais conta. Um dia, algum empreendedor vai trazer a mirabolante ideia de um shopping. Ruim para todos: os moradores - que hoje tem a opção de andar a pé - para os comerciantes, obviamente.
É preciso prever áreas para expansão de moradias, inevitavelmente espraiando a "mancha" urbana: e a infraestrutura para isso não é barata. O transporte coletivo - que já é ruim - terá de ser ampliado. O tempo de deslocamento casa-trabalho será muito maior, reduzindo a convivência familiar e a fruição do tempo livre. Pode aumentar a violência. A infraestrutura social e institucional será insuficiente: estariam os cidadãos preparados para o aumento da procura por apoio?
É preciso prever áreas para expansão de moradias, inevitavelmente espraiando a "mancha" urbana: e a infraestrutura para isso não é barata. O transporte coletivo - que já é ruim - terá de ser ampliado. O tempo de deslocamento casa-trabalho será muito maior, reduzindo a convivência familiar e a fruição do tempo livre. Pode aumentar a violência. A infraestrutura social e institucional será insuficiente: estariam os cidadãos preparados para o aumento da procura por apoio?
E o principal, no meu entendimento, seria a possibilidade de perda da identidade cultural pirassununguense. Falo da cultura caipira, do estilo de vida interiorano, da velocidade menor do cotidiano. Da menor necessidade de "pressa". Do orgulho que os antigos tem da cidade, de suas instituições culturais, do "C-A-P", o segundo clube de futebol mais antigo do Estado.
Mas há outra opção? Como gerar emprego e melhorar a economia local sem novas indústrias?
Em primeiro lugar, é preciso redefinir o termo "indústrias". A cidade pode, sim, receber novas indústrias, mas deve combater as unidades fabris poluentes. Tanto as poluentes ambientais, como as acústicas, as visuais e as que emitem odor. Que esses empreendedores se atualizem tecnologicamente, que evoluam suas práticas, suas técnicas. Enquanto isso, nenhuma cidade deveria recebê-los - ainda mais uma cidade que possui certa qualidade de vida e outras opções de geração de emprego, como Pirassununga.
Também devem ser combatidas as grandes indústrias. O impacto físico desses empreendimentos é muito amplo, além do impacto político (passam a ter grande ingerência nos negócios da cidade) e o já citado problema migratório.
As outras indústrias são muito bem-vindas. Ainda mais se forem pequenos negócios, geridos por gente daqui e das redondezas, gente com alguma ligação cultural ou sentimental com o lugar (lugar no sentido de apropriação psicológica do espaço). O empreendedorismo deve ser incentivado, as incubadoras devem ter espaço de destaque no parque industrial e de serviços. A somatória de vários negócios pequenos gera mais e melhores empregos do que uma única grande indústria (uma breve pesquisa no SEBRAE já retorna esse resultado).
O comércio da cidade pode e deve ser dinamizado. O centro comercial possui potencial urbanístico para tal, e da forma em que se apresenta hoje, não há como prosperar mais. Devem ser incentivados circuitos que possam ser percorridos a pé, na forma de "shopping a céu aberto". Deve haver integração das áreas de estacionamento com esses circuitos. Hoje, os comerciantes e funcionários ocupam todas as vagas de estacionamento. Os visitantes são obrigados a ficar circulando até identificar uma vaga! Ou seja, as lojas precisam de... um "banho de loja"! Com a dinamização do centro comercial, será possível para os comerciantes pagar melhores salários, aumentar suas equipes e oferecer um serviço melhor para o população, talvez ampliando seus horários de atendimento.
Outra gestão importante é com relação às instituições públicas existentes no município. A Prefeitura deve se aproximar de outras esferas governamentais e oferecer o que puder para que a AFA, a USP, o IBAMA e outras instituições ampliem suas instalações. Além de oferecer bons empregos e a fixação de profissionais de alto gabarito na cidade, essas instituições formam gente muito capacitada, que com o tempo podem se fixar e criar novas cadeias produtivas.
Nesse sentido, vem a política mais importante que uma gestão progressista deveria defender: a melhoria da educação do povo. Não apenas a melhoria na educação primária, que é obrigação do município. Mas outras frentes, como: a criação de cursos profissionalizantes; o empoderamento das comunidades na gestão dos espaços públicos dos bairros; a conscientização da participação do indivíduo nas coisas da cidade; a criação de cursinhos gratuitos para os filhos da cidade ocuparem mais vagas na USP e na AFA; o ensino musical, artístico e esportivo para todas as crianças - com ocupação em tempo integral; a efetiva ocupação dos espaços públicos com eventos culturais; etc, etc, etc.
Há, ainda, outras ações pontuais que podem melhorar - e muito! - a geração de emprego e a melhoria da renda do povo. É preciso um pouco de criatividade e bastante embasamento técnico para agir.
E o perímetro urbano, esqueceu?
Aumentar o perímetro urbano é válido para aumentar a arrecadação de IPTU, cobrando de empresas que efetivamente estão utilizando a área urbana e não estão pagando adequadamente. É claro que essas empresas vão contratar advogados caríssimos para não pagar esse imposto (já viram o sonegômetro?), no entanto isso foge da minha alçada.
Mas me posiciono totalmente contrário a aumentar o perímetro urbano para permitir a chegada de empresas grandes ou empresas poluidoras. Pirassununga não precisa disso para ser uma cidade melhor para seus munícipes.
"Plateia contou com representantes de empresas instaladas na região"
Eles ficaram sabendo da audiência. Nós, não.
Eles ficaram sabendo da audiência. Nós, não.



Nenhum comentário:
Postar um comentário