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quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Parte 1 dos breves comentários sobre

“Espaço e lugar: a perspectiva da experiência. São Paulo: Difel, 1983. TUAN, Yi-Fu”

Tuan inicia seu texto com a tentiva de definir os conceitos de “espaço” e “lugar”. “Espaço” seria um conceito mais amplo, aberto, sem limites, enquanto lugar seria mais pontual, ligado à ambientes para os quais damos algum valor cultural ou sentimental.

O objetivo do livro é interpretar como o ser humano (tido como complexo, simbolista, animal, fantástico e calculista) se relaciona com o meio ambiente.

O livro enfoca três temas que se entrelaçam, referentes à condição humana, e possivelmente modificados e modificantes pela cultura:

1- Fatos biológicos (idade, sentido do corpo);

2- Relações de espaço e lugar (intimidade, exploração, movimento e pausa);

3- Amplitude da experiência ou conhecimento (conhecimento empírico, conceitual, íntimo, etc);

Para a sistematização do livro, os conceitos estão divididos em capítulos, com a tentativa de articular essas experiências humanas sem a produção de modelos, que Tuan deixa para os planejadores.

Perspectiva experiencial

“A experiência é um termo que abrange as diferentes maneiras através das quais uma pessoa conhece e constrói a realidade”. Pode ser direta (como os sentidos) ou indireta (através de símbolos).

O diagrama acima está no livro e explica bem as relações da emoção e do pensamento com os tipos de experiência.

“A experiência é constituída de sentimento e pensamento”. Entende-se sentimento como um processo contínuo e não uma sensação única. Pensar está ligado com o sentido da visão (principalmente, mas também os outros sentidos). Pode-se educar os outros sentidos para aprimorá-los, e fazem também parte do pensar o mundo. Porém, para permitir-nos que declaremos valor ou sentimento à algum espaço, há três órgãos (ou experiências) primordiais: cinestesia, visão e tato. Movimento para apropriar-se do espaço propriamente dito, visão para sua compreensão tridimensional e tato para dimensionar.

Assim, conceitua-se lugar como “uma classe especial de objeto (...), é um objeto onde pode-se morar”. O espaço, já mencionado, é dado pela capacidade de mover-se.

Enfim, o homem procura materializar o seu conhecimento, incluindo o espaço, dando “personalidade geométrica” aos objetos e lugares (só funciona pois temos a experiência). Exemplo: crianças e cegos de nascença que recuperem a visão não podem entender o triângulo. Precisam primeiro identificar os ângulos (lugares). Mas a questão que se coloca é como designamos valor para essas impressões adquiridas através dos sentidos. O homem, através da inteligência personaliza as coisas, os lugares. E o faz quando a experiência é total, agrupando todos os sentidos, por dentro e por fora, produzindo uma ação “ativa e reflexiva”.

Espaço Mítico e Lugar

Pela limitação do conhecimento sobre a realidade surgem os mitos. Em geografia, reduzem-se os mitos atualmente, pela vastidão do conhecimento sobre a Terra.

Há dois tipos de espaço mítico: um ao redor do espaço pragmático e outro que é a espacialização de um conceito de mundo, O primeiro tipo é a criação mental do espaço que o indivíduo sabe que existe, mas não conhece, além das experiências já vividas. Inclui-se aqui as áreas que há um “conhecimento comum acumulado”, como o país, por exemplo. Já o segundo tipo é o que Tuan chama de cosmologia. O espaço mítico seria um elemento organizador que determinaria (ou aceitaria) cada função e cada lugar na relação homem-natureza. Há longa explanação sobre o entender do macrocosmos – microcosmos, para explicar como se dá essa relação. Explica longamente também como advém do conhecimento empírico as bases para formular essas teorizações culturais do espaço mítico conceitual e organizado.

A questão que se mantém em ambas as visões é: como o homem é afetado? Pode-se entender que se o homem é afetado pelos efeitos das forças físicas (como as marés, os ventos, etc) então poderia ele também vir a alterá-las, ao romper com as premissas estabelecidas nessas visões míticas.

A influência do ambiente no modelo cosmológico aparece em vários exemplos, como na visão em que habitantes de diferentes latitudes teriam habilidades intrínsecas.

Esse tipo de divisão atualmente não tem valores simbólicos, segundo Tuan, mas apenas pragmáticos. Mas o valor do espaço mítico está na eleição da parte como representação do todo, conceito repetido em geral nos exemplos adotados.

Espaço arquitetônico e conhecimento

O homem, como outros animais, tem a habilidade de edificar suas próprias construções. Qual a influência desses espaços construídos sobre o próprio homem?

Tuan contrapõe a construção tradicional e a obra arquitetônica moderna, com base nas questões de onde construir, com que material e com qual forma. Para o construtor tradicional, há o diferencial da repetição, já que os materiais são efêmeros (palhas, madeiras, barro). Enquanto isso a forma persiste, por motivos como religião, especialmente. Depois, diferenciam-se pela adoção do conhecimento espacial representado: planos e projetos. Um exemplo interessante é a construção da catedral de Chartres, comparada a um ritual de oração.

Assim, o ato de construir é tratado como uma abstração que torna possível um ideal ser transformado em espaço, através de uma forma material. A arquitetura é um meio que faz sentimentos sobre o espaço ficarem registrados.

A relação entre interior / exterior é exemplar. Desde as eras mais antigas até hoje permanece impactante o “entrar” e o “sair”, o “íntimo” e o “vasto”. Além dessa relação há as relações de vertical / horizontal, massa / volume, claro / escuro, etc...

O ambiente edificado prepara o homem para compreender esses sentimentos (vastidão, calma, segurança, etc) em escala menor do que a proporcionada pela natureza. Assim, a própria casa ou uma cidade podem ensinar não apenas esses conceitos, mas podem reter um propósito “educacional” de fins religiosos, tradicionais, sociais ou econômicos. Um igreja medieval, por exemplo, condiciona o olhar, os sentimentos e contém diversas dessas simbologias “educacionais”.

Hoje, o espaço arquitetônico continua a articular a ordem social, continua com sua função educativa e continua a deter impacto sobre sentidos e sentimentos, segundo as mesmas relações já citadas (interior / exterior, massa / volume, etc). Em compensação, a participação na construção e os ritos envolvidos nesse processo passaram a ser pouco importantes.

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