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quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Cidade das Artes e Arquitetura Moderna HOJE

Recebi o mailing da Revista Techne, que trouxe uma reportagem muito interessante sobre o processo de cálculo e as relações entre calculista e arquiteto, abordando especificamente a obra "Cidade da Música (atual Cidade das Artes", no Rio de Janeiro. O projeto é do arquiteto Christian de Portzamparc, prêmio Pritzker de 1994 (http://www.pritzkerprize.com/).

Minha curiosidade ficou aguçada. Em três semanas vou visitar a cidade e por isso resolvi pesquisar a respeito dessa edificação, com características monumentais e um traço modernista, com lajes extensas, curvas de concreto (protendido), esplanadas... várias características que me agradam na fruição de obras arquitetônicas.


Antes de uma visita, nada melhor que pesquisar. Primeiro, as questões de ordem prática: onde fica, qual o horário de funcionamento, qual a agenda, etc... As respostas me surpreenderam: já houve uma inauguração prévia em 2009, em outra gestão, com a obra inacabada. E há anúncios de re-inauguração citando julho, agosto, setembro e outubro desse ano corrente. Politicagem do Rio, que tal se organizar? Que tal consultar a fiscalização antes da decisão política? O sítio da Prefeitura não retorna nada útil quando pesquisamos por "Cidade das Artes". Em outros sítios que contém a agenda cultural da cidade também não há citações a respeito. Portanto, concluo que o prédio está fechado, em obras. Ok, vou levar a carteirinha do CREA e dialogar com o engenheiro residente (suponho que nessa fase final haja trabalhadores no final de semana).

Com relação à localização, eu deveria fazer uma crítica a um certo elitismo da intervenção: no entroncamento de avenidas quase expressas, cercado por shopping centers, na região da Barra da Tijuca, que é quase uma cidade à parte do Rio de Janeiro. Mas há atenuantes: há um terminal de ônibus em distância facilmente vencida a pé. Havia a necessidade de um terreno especialmente grande, o que não é comum em uma cidade antiga e com geografia tão complexa.

Finalmente, fui pesquisar a respeito do projeto. Confirmei minhas expectativas referentes às características do edifício. É, de fato, uma edificação com inspiração modernista, trazendo em sua composição vários recursos estéticos daquele movimento. A partir disso, fiquei com duas questões "martelando" em minha cabeça.
1- É possível, hoje, com uma arquitetura em constante transformação, com referências estéticas novas e muito agradáveis, ainda utilizarmos o modernismo como padrão de concepção para novos edifícios, em especial os que apresentam escala monumental?
2- É correto insistirmos em tecnologias construtivas pouco sustentáveis, com abundante uso de concreto e aço, altos níveis de manutenção e custo financeiro e social elevado?

Para auxiliar na resposta da primeira pergunta, localizei um texto espetacular do arquiteto e professor Otavio Leonídio, da PUC-RJ, publicado no Arquitextos. O link está aqui. A minha conclusão (que pode ser confirmada ou reformada após a visita) caminha no sentido de que devemos aproveitar a experiência estética e funcional do modernismo. Especificamente aqui no Brasil essa experiência foi muito desenvolvida, portanto nós, brasileiros, carregamos conosco as sensações que o modernismo proporciona. Quem já caminhou sob uma esplanada com pilotis, subiu rampas curvilíneas e transitou entre ambientes sem notar a transição? Talvez não tenha se dado conta, mas essas sensações (e muitas outras) são reflexos da experiência modernista. Então cabe a nós, arquitetos (brasileiros!) aproveitar esse conhecimento acumulado.

Para responder a segunda pergunta, no entanto, não basta criticar a tecnologia convencional. Há pesquisas no sentido de melhorar os insumos mais conhecidos. O concreto, por exemplo, deve ter durabilidade muito maior e utilizar o mínimo possível de material, obviamente garantida a estabilidade estrutural. O pesquisador Tobias Pereira, da USP de São Carlos, apresentou Dissertação de Mestrado a respeito. Trata-se de um caminho, divergente daquele que institui a arquitetura com terra como principal eixo da construção sustentável.

Conclusão

A leitura de uma obra arquitetônica, enquanto arte, tem um caráter muito exclusivo, individual. O "lugar" toca cada indivíduo de forma única. Então a argumentação a favor (ou contra) um movimento ou mesmo uma obra de arquitetura sempre é muito pessoal. * Para mim, uma construção modernista quase sempre agrada, seja pelos percursos, geralmente fluidos, seja pela composição formal. Esteticamente, nos últimos séculos, é a alternativa mais difundida (não só pela questão industrial da Bauhaus).

Porém a estética modernista traz, de nascença, uma resposta ética primordial: edifica-se mais rapidamente, resolvendo assim as necessidades da sociedade contemporânea (mais mobilidade, mais produção, mais consumo e mais... gente!). Mas outros questionamentos éticos surgiram depois, como a anulação do indivíduo pela repetição das formas. A arquitetura modernista brasileira é a que melhor respondeu a essa questão posterior. Para isso, no entanto, houve um recuo na ética primordial do modernismo. No momento atual, a pesquisa dos arquitetos é a tentativa de responder a essas duas questões coerentemente. E não necessariamente pesquisar como construir usando "tampinha de garrafa pet" e "sacolinha plástica"...

P.S.: Rio de Janeiro, dia 14/10 eu estou chegando.

* Claro que há questões técnicas envolvidas, como conforto ambiental e térmico, adaptabilidade, etc. Nessas hipóteses estou considerando obras bem resolvidas na questão técnica.

Um comentário:

  1. E não necessariamente pesquisar como construir usando "tampinha de garrafa pet" e "sacolinha plástica"... Hehehe!!! Muita boa frase! E infelizmente grande parte do povo pensa que apenas isso é moderno, ético, sustentável. Pois tá na moda.

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