Da eleição para o CAU
Dia 26 de outubro ocorre a primeira eleição para o Conselho dos Arquitetos e Urbanistas. Desde o surgimento da profissão no Brasil, os arquitetos e urbanistas estiveram vinculados à Engenharia. No início, antes da regulamentação da profissão, através da Academia. Depois, através do Conselho - o CONFEA (Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia). Uma bandeira antiga dos arquitetos que militam nas entidades profissionais é a luta para a separação desse Conselho multidisciplinar. Uma demanda justa e coerente, já que esse Conselho invariavelmente pende para o lado das Engenharias. Essa luta se encerrou no final do ano passado, quando a profissão foi regulamentada por uma nova Lei Federal, que estabelece a criação do CAU.
Nessa Lei estão expostas as regras gerais para a eleição do novo Conselho. Entre elas, a formação de chapas proporcionais estaduais, com uma representação de cada Estado no Conselho Federal. A eleição é direta, sendo que cada arquiteto vota em uma chapa. Nesse pleito a votação será via internet, tendência que acredito ser cada vez mais dominante.
A formação das chapas para esse pleito é consequência da organização da categoria ANTES da Lei Federal e do surgimento do CAU. Ou seja, um grupo, liderado pelas antigas Câmaras de Arquitetura do sistema CONFEA/CREA, organizou a "Chapa 1". Outro grupo, que combateu esse sistema, formou a "Chapa 2", composta por dirigentes e figuras proeminentes das 5 entidades de Arquitetos (IAB, FNA, ABAP, ABEA, AsBEA).
Então a paisagem eleitoral é muito clara, transparente: de um lado um grupo que estava no seio da estrutura vigente, que não funciona, mas manteria boas relações com o mesmo. Essa "Chapa 1" tem base eleitoral nas associações de engenheiros e arquitetos, distribuídas pelas cidades do Estado. Representa os profissionais militantes no mercado médio, ou seja, fora do "star system" da arquitetura brasileira, mas também fora do enorme grupo de arquitetos empregados em empresas ou profissionais eventuais (que não conseguem se estabelecer em definitivo na profissão).
A "Chapa 2", por sua vez, é a fotografia das 5 entidades que a apóia. Traz consigo os professores que formaram a maioria de nós arquitetos. Traz os medalhões da arquitetura, nossas referências. E também traz os dirigentes que não souberam gerir essas mesmas 5 entidades. Tomemos como exemplo o IAB-SP: dos 39.000 arquitetos no Estado de São Paulo, quantos são associados? Mais que isso, quantos são ativos no dia-a-dia da entidade? Pouquíssimos.
Do meu voto
A profissão "Arquiteto e Urbanista", indivisível e diversificada, é vista pela sociedade como elitista. Mesmo no meio técnico é comum não haver compreensão do trabalho do Arquiteto. O desconhecimento é generalizado. Paralelamente, as construções que vemos nas cidades são: 1) auto-construção sem qualquer tipo de assistência técnica; 2) profissionais "canetinhas", arquitetos ou engenheiros civis, que pelos honorários que recebem jamais poderiam se responsabilizar pela obra (e até pelo projeto) em curso; 3) projetos do tipo "carimbão", seja por financiamento público ou privado, essas obras são resultado de projetos adaptados, considerando redução exagerada de custos (ou de prazos de projeto); 4) um pouquinho de Arquitetura correta (não estou dizendo "autoral", mas apenas "correta").
Então o grupo que tomar posse para essa primeira gestão deverá ter 3 frentes principais de trabalho:
1- criar a estrutura física, administrativa, etc, do Conselho;
2- reverter esse entendimento errôneo que a sociedade tem da profissão;
3- fiscalizar (é óbvio), mas também instruir sobre a necessidade (e as vantagens) de contratar um arquiteto.
Além disso, esse grupo deve ter em mente que está representando uma coletividade muito diversificada. Há funcionários públicos, há funcionários de empresas da construção civil, de empresas fabricantes de insumos, de escritórios de arquitetura. Há gente trabalhando na decoração, na venda de móveis, na montagem de estandes. Há os que militam em seus pequenos escritórios, lutando por clientes que não tem a mesma consciência e conhecimento que os contratantes de elite. E também há a meia dúzia de figuras que estão estabelecidas, mesmo reclamando nas páginas de revistas, mas com seus clientes cultos garantidos.
Consideradas essas premissas, como se encaixam as duas chapas? A "Chapa 1" é a chapa do status quo, do pessoal que está tranquilo com a situação atual. Oras, se há tantos problemas, como não desejar a mudança? Eu dispenso a "Chapa 1" por uma questão primordial, de vícios de origem. Mesmo tendo uma proposta de gestão razoável, um discurso macio e conciliador... não dá.
A "Chapa 2", por seu turno, traz consigo uma ambiguidade quase orgânica. Incorpora em seu discurso e em sua programática todas as questões levantadas nessas premissas. Mas é capitaneada pelas mesmas figuras que comandam essas entidades, cada vez mais esvaziadas e menos representativas dessa diversidade que citei acima.
Por tudo isso, voto na "Chapa 2". É um voto de reverência aos professores e arquitetos que nos inspiram e é um voto de confiança, crendo que essas pessoas vão lutar para cumprir o programa apresentado. Mas voto preocupado, pois sinto que a maioria dos 39.000 arquitetos do Estado de São Paulo não se sentirá representada e nem convidada (ou instigada) a participar. Espero que na eleição seguinte nossa categoria consiga se organizar e ter uma alternativa, uma "Chapa 3", que reúna essa massa de pouca visibilidade e entenda seus problemas (e interesses).
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