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terça-feira, 17 de abril de 2012

O "progresso" que faz mal

Os absurdos urbanísticos continuam na cidade de Santos. Em notícia veiculada no jornal A Tribuna (veja fotos a seguir), no terreno antes ocupado por um supermercado será erguido um "megaedifício" com quase 40 andares e 471 unidades.

Algumas continhas básicas:
a) para as 471 unidades, considerando a altíssima taxa de motorização da cidade, teremos, vá lá, 900 veículos novos. O impacto no trânsito é equivalente ao de um novo bairro, sendo que o terreno ocupa apenas uma parte de um quarteirão;
b) para unidades de 45 a 130 m2, temos um tamanho médio de unidade (chute, ok?) de 90 m2. O preço do metro quadrado é R$ 9.500,00. O faturamento do empreendimento, considerando apenas a venda dos apartamentos, será quase 403 milhões de reais. R$ 403.000.000,00. Equivalente a 1,6% do PIB da cidade (a 16ª mais rica do país). Imaginem o lobby junto aos órgãos públicos;
c) Considerando um projeto eficaz, com 80% de áreas privadas, a área construída chega perto dos 51.000m2. E no térreo ainda será construído um novo supermercado. E acrescente ainda as áreas condominiais de acesso e as garagens, para um terreno de aproximadamente 7500 m2. Um cálculo aproximado do coeficiente de aproveitamento resulta em 7,0. SETE! Índice adequado para locais com transporte público de massa muito eficaz e altíssima oferta de empregos;
d) Pesquisas de mercado indicam ao incorporador que 70% das unidades serão vendidas nas primeiras semanas após o lançamento. Ou seja, há mercado para compra (e eventuais novos absurdos na paisagem santista).

Além disso não posso furtar-me de criticar os comentários sobre a arquitetura do edifício, que segundo a notícia (praticamente um anúncio publicitário), é "diferenciada", imita "o movimento das ondas". Garantiria vista para o mar de quase todas as unidades e é considerado um mérito a semelhança com o Copan, edifício projetado 61 anos atrás por Oscar Niemeyer.
Antes de tudo devo questionar a postura publicitária do jornal, que não analisa e não consulta especialistas sobre uma notícia de impacto para a cidade.
Quanto à arquitetura, o escritório projetista (Aflalo e Gasperini) vem repetindo essa fórmula em vários edifícios de grande porte da cidade de São Paulo. Não chega a ser ruim, mas também não é bom. Edifícios desse porte, com escala monumental, devem ter um tratamento plástico muito criterioso. Não é o caso desse projeto. A comparação com o Copan é quase deprimente. Não há nenhuma referência mais recente? Paramos no tempo? O comentário sugerindo que a arquitetura imita as ondas do mar é igualmente triste: então todas as cidades praianas devem ter uma arquitetura com essa característica? Cada lugar tem uma identidade e ouso dizer que a identidade local não é exatamente essa. Há muitas outras referências na cidade que poderiam ser escolhidas.

Apesar de importantes, essas questões ficam em segundo plano quando se analisa o empreendimento do ponto de vista coletivo, público, urbano. O impacto na infraestrutura urbana é monstruoso e na paisagem e "skyline", irrecuperável.
Para compensar a sobrecarga na infraestrutura local, esse empreendimento deveria oferecer uma contrapartida de grande vulto para a Prefeitura (que aposto ter sido módica). Tanto no consumo de água, energia elétrica, redes, asfalto; como na deposição de esgotos; na sobrecarga do transporte público sobre pneus. Haverá trânsito até na saída do prédio, causando incômodo pra quem passeia na calçada! Santos não é Nova Iorque!
Quanto ao impacto na paisagem, os danos são irreversíveis. O sombreamento do volume edificado causará grande impacto ao redor. A "skyline" da cidade sofrerá mais uma agressão, já maculada pelo monstro do Íbis que ocupou o terreno do clube XV, aqueles terríveis "Jardins da Grécia" e o horrível "Prime Plaza" (entre outras horripilâncias).
Até quando os polítiticos de Santos vão permitir? O poder local não está lá pra incentivar a construção civil, em detrimento da qualidade de vida. Urge manifestação popular, mas parece que muitos santistas tem orgulho desse crescimento, que na verdade está sacaneando o morador!

Jornal "A Tribuna" de 15 de abril de 2012

Jornal "A Tribuna" de 15 de abril de 2012. Veja aqui o terreno.

O polvo invasor do Armênio Mendes, nos "Jardins da Grécia" santista.

Mais uma. Sim, é verdade, "isso" está lá. Avenida Saldanha da Gama, 159 - Ponta da Praia.

Skyline da Ponta da Praia, autoria do imagens aéreas.com.br.

Fachada neo-cocô (uma praga que a capital já se livrou) do "Prime Plaza". Avenida Presidente Wilson, 30. Gonzaga.

O ofensivo Íbis no local do antigo Clube XV, que era uma pérola da Arquitetura Modernista.
Jamais me hospedarei em um Íbis.
O antigo Clube XV, projeto de P.P. Melo Saraiva e F. Pretacco. Clique aqui para saber +.

Skyline com as excrescências, vinda desse fórum aqui.


E logo no lugar do Jumbo (depois Pão de Açúcar) onde tanto brinquei quando criança!

Um comentário:

  1. Triste! E depois esse mesmo pessoal que participa, compra e que acha linda tal 'evolução' vai reclamar de políticos e do mundo. Não percebem, na hora que tudo está acontecendo, que isso é na verdade um problema.

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