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quarta-feira, 2 de março de 2011

CASAS em parcelas de terrenos

Se estiver com pressa, vá direto ao "epílogo".
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CASAS em parcelas de terrenos
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A vida real nos impõe dificuldades que estão acima das normativas e leis. Um caso muito especial e extremamente frequente é a subdivisão de um terreno pelos filhos, com os pais em vida.
Principalmente nos subúrbios (e destacadamente nas periferias), é muito comum que os filhos resolvam construir no terreno dos pais, que por seu turno construíram há muitos anos sua casinha em um terreno (na época considerado) grande.
A parcela do terreno, portanto, normalmente é pequena demais para um processo de desmembramento, dentro das normativas e legislações. Além disso, impõe sérias dificuldades no tocante à privacidade, iluminação e ventilação.
Pior ainda, essas jovens famílias querem um padrão de vida moderno, que exige grande consumo de energia, acesso à internet, espaço para as crianças no interior da casa e - se possível - uma garagem.
Com relação ao processo construtivo, há outras especificidades. O jovem é o próprio empreiteiro, contando com a "força" de amigos "quase profissionais" da construção civil e contratando algumas equipes especializadas.
Por fim, é também necessário prever a construção por fases, já que nem sempre a verba estará disponível integralmente para a construção ANTES de sua ocupação.

A seguir, dois exemplos reais, desenhados com boa vontade, mas acompanhados da sugestão "que tal pensar um pouco mais?" . Casa da Ju

Essa é uma casa para um parcela de 6 metros de frente, algo pouco comum. No entanto, o total do terreno é de 54 m2, muito abaixo do preconizado na lei. O programa contava com sala, cozinha pequena, lavabo (obrigatório), área íntima com 2 quartos e banheiros individuais. Além disso, um pequeno quintal para estender roupas.
Encaixar o programa em um cubo quase monolítico foi a solução adotada, resultando em espaços dimensionados de acordo com as exigências da cliente. Pensei em inserir uma platibanda e encaixar o telhado para o lado de dentro, mas a construção seria edificada em um bairro muito distante, portanto sua manutenção será feita apenas em finais de semana - o que sugere que não adotemos calhas. Para dar identidade à construção, foi adotada uma fachada com esquadrias tipo maxim-ar, instaladas estrategicamente.
Por fim, encaixamos a escadaria em um ponto que permitia um pequeno trecho mais alto, para melhorar a iluminação e a ventilação.
Sugerimos à cliente que refletisse sobre suas necessidades. É uma situação muito delicada informar para um pessoa que seu sonho não pode ser realizado. Ou que anos de trabalho não devem ser investidos em uma casa que dificilmente terá sua documentação realizada.
Enfim, no contexto urbano, essa casa não estaria totalmente inadequada, já que é um tipo de ocupação coerente com o entorno. A vida nessa casa não seria ruim. Seus espaços estão (muito) melhores que os apartamentos populares das construtoras Tenda, Morar e porcarias afins.
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Casa do Tatá
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Essa casa foi construída com algumas modificações e serviu como um bom aprendizado para mim. As paredes fora de ângulo foram consideradas complicadas para executar. Trata-se de um estudo para um amigo, que ia construir, independentemente de minhas orientações ou não.

O terreno é muito comprido e já possui uma casa na sua porção frontal, à esquerda da implantação desse projeto. Porém há uma saída para uma rua sem saída, exatamente onde se apresenta uma abertura no muro, na parte inferior do desenho do 1º pav.

A parcela, portanto, está nos fundos do terreno, em área de aproximadamente 6x6m, irregular. O programa contava com o mínimo que uma família com 1 filho precisa: dois quartos, banheiro, sala, cozinha, lavanderia. Se possível, um lavabo para visitas e um espaço com churrasqueira.

Praticamente todas as edificações do entorno são sobrados, com dois pavimentos e cobertura sobre a garagem, muito típico na periferia de São Paulo.

Assim, adotou-se o partido de edificar em dois pavimentos, com uma área parcialmente coberta na segunda laje, fechando-se com uma parede a visão para o lado que tem construção até o alinhamento, na parte superior desse desenho. A distribuição dos ambientes seguiu a orientação do cliente e os fluxos existentes na casa antiga.

As paredes em ângulo foram estudadas para ampliar a ventilação e a iluminação, aproveitando-se o sol da tarde, já que as faces mais insoladas eram empenas da vizinhança. Seu efeito foi quase anulado pois as paredes foram construídas de forma perpendicular às outras.

O resultado foi uma residência pouco iluminada, com deficiências de ventilação, mas espaços adequados para sua família, até confortáveis. Esteticamente, um bom acabamento resolve o problema, já que é uma casa voltada para seu lado interior.

Todos os problemas foram informados previamente ao meu amigo. Mas ele preferiu conviver com eles. Porquê? A grande vantagem era a localização, em um bairro próximo do centro, e a felicidade em se livrar do aluguel. A parcela do salário que o amigo despendia com o pagamento de alugueres, para morar em um bairro razoável, estava muito acima do desejável. Então, construir no terreno de sua família, mesmo que não resultasse em uma casa muito boa, era a única alternativa para ele.

Do ponto de vista urbano, a casa não aparece, já que está quase cercada por empenas (de vizinhos que já haviam feito o mesmo!). É incrível, mas o espaço exigido para ventilação e iluminação, no interior da quadra, já estava quase completamente edificado, restando exíguos quintais. Eu consideraria salutar não fazer o mesmo naquele terreno, mas o amigo estava convicto. Como convencer alguém de não fazer algo, mesmo sendo contra as normativas, quando se é o último a não tê-lo feito?

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E P Í L O G O

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Se quem está lendo esse texto é um interessado em construir em uma parcela de terreno, a dica é: pense bem. Muitas vezes é possível projetar uma boa construção, afinal, cada caso é um caso e você merece o melhor.

O que quero dizer é que será muito melhor, tendo em vista o futuro, se você construir de forma totalmente legal, colocando placa com o nome do responsável na frente da sua obra e podendo vender sua casa no futuro, totalmente documentada. Inclusive, um bom arquiteto poderá auxiliá-lo à desmembrar oficialmente o terreno ou indicá-lo outro lugar que seja adequado para construir e dentro de suas condições financeiras. Talvez seja preciso esperar um pouco mais, mas podemos planejar melhor a construção, para durar menos tempo e no final de tudo, ter uma casa muito melhor.

Se quem está lendo esse texto é um profissional da construção civil, é preciso lembrar, sempre, de nossa responsabilidade como agente na melhoria das condições de vida da sociedade. Ao atendermos um possível cliente que deseja construir sua casinha em uma parcela (ou qualquer cliente, na verdade), o que estamos vendendo não é um projeto ou uma obra. Estamos vendendo progresso. Um progresso na vida dessa família, seja para evitar que se mudem para um lugar inadequado, seja para incentivar uma melhoria acima da esperada, seja para simplesmente adequar as ideias do cliente para melhorá-las.

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