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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

A insensibilidade das gerações atuais


Estava refletindo, nesse final de semana, sobre a falta de sensibilidade da nossa espécie, pelo menos nas gerações atuais. Mais do que uma observação da vida cotidiana, essa reflexão incluía a arte contemporânea, a música pop (especificamente o rock, com o qual me identifico).
Quase não vejo mais atos cotidianos de generosidade, altruísmo ou desprendimento. Quando há algo assim, é motivo pra notícia de jornal. Na arte e na música, quase não há engajamento e sequer há o velho "romantismo", que apesar de ser egoísta representava sentimentos positivos.
É o tempo do "cada um por si".
Mas, mesmo vivendo nesse tempo e oprimidos pela pressão da mídia e da sociedade, há os que se sentem incomodados com a situação. Numerosos, mas minoria. Essa pequena massa, surda, tem uma energia latente que algumas vezes explode. Daí surgem coisas como o movimento "Occupy" e os "Churrascões da Gente Diferenciada".
Particularmente, tenho cada vez menos identificação com a sociedade contemporânea. Também tenho poucas esperanças de ver um mundo mais justo. E cada vez menos consigo identificar pessoas com índole generosa, que conseguem enxergar o "bem" no "outro" - e não portar uma desconfiança contínua. Mas nesses movimentos, que reúnem muitas dessas pessoas (tem muito aproveitador no meio, também), vejo uma luz. Talvez não como caminho a ser trilhado (há poucos resultados práticos), mas pelo menos como agrupamento de boas intenções. É como um ponto de encontro de pessoas que ainda tem sensibilidade.
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Ao invés de escrever um texto com situações que pontuem essa reflexão, vou reproduzir um trecho do blog de Eduardo Guimarães (http://www.blogcidadania.com.br/), que em reportagem sobre o "Churrascão da Gente Diferenciada na Cracolândia", conseguiu exprimir, em uma situação pontual, essa sensibilidade e generosidade que me refiro.
Traduz também a mesma angústia que sinto. A diferença é que o autor é militante, lutador. Eu não.

"...as constatações deprimentes que aquela descida ao inferno causou, porém, não parariam por ali. Os zumbis do crack e os visitantes solidários pouco se misturavam. Os receptivos eram moradores de rua, mas não necessariamente usuários daquele veneno.
Alguns usuários de fato atravessavam a multidão dando encontrões de raspão, aparentemente contrariados. Fiquei imaginando se não temiam que tudo aquilo lhes fosse cobrado pelos opressores quando fôssemos embora.
Aqueles filhos de Deus rescendendo a morte, a excrementos, a álcool, com bocas desdentadas, feridas espalhadas e olhares mortiços… Como ir embora e deixá-los lá? Como sair dali sem ter feito nada? E o que é mais: como purgar a culpa por fazê-lo?
Moças e rapazes tentavam puxar canções, instilar alguma alegria no entorno – como se fosse possível –, mas não repercutia. Não havia espaço para outro sentimento além da perplexidade. E a separação tácita entre visitantes e anfitriões, mesmo estando misturados, tornava tudo pior.
Após resistir por cerca de uma hora, não suportei mais. Despedi-me de amigos que lá encontrei e saí em fuga daquele inferno. E sem olhar para trás.
Perdi a noção de tempo e espaço. Caminhei debaixo de chuva por quilômetros. Só então parei um táxi. Chegando em casa, tomei uma dose de cachaça. E mais outra. Lá pela terceira percebi o que estivera fazendo: tentara, sem sucesso, redimir-me da culpa."
"Angústia" de David Siqueiros, pintor mexicano

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