Rio de Janeiro
Impossível começar uma homenagem às Cidades Maravilhosas por outra cidade. Um lugar onde a própria geografia é privilegiada. Os morros e pães-de-açúcar, as praias e a Lagoa. A Baía de Guanabara. Afora isso tudo, o trabalho do homem que conscientemente transformou o espaço para embelezá-lo (Cristo no Corcovado, Bondinho no Pão de Açúcar, Aterro no Flamengo, Conjunto Habitacional na Gávea, Aqueduto na Lapa e um longo et cetera). E ainda o trabalho inconsciente, coletivo, que dá forma a lugares como Santa Tereza, Canoas, Alto da Boa Vista, Copacabana, Leme, Tijuca...
Na minha interpretação do Rio (bem particular), o que incomoda mais não são as favelas. Os morros estão lá, ocupados, há mais de um século. São o retrato da história do Brasil e – no meu entender – fazem parte desse trabalho inconsciente que dá forma a essa Cidade Maravilhosa. O que de fato me incomoda é a expansão suburbana. A metrópole já chega a Mesquita, Nova Iguaçu, Queimados, Japeri, Itaguaí. Uma periferia contínua e degradada, visualmente feia, sem caráter. Conheço vários subúrbios, mas o subúrbio da Baixada é especialmente desagradável. Enquanto isso o poder público vai investindo nas favelas, para urbanizá-las e incluí-las no cotidiano de todos que vivem na urbe. Em um futuro distante, morar no topo da Rocinha será sinônimo de luxo. Ou vocês acham que Santorini sempre foi chique?
A primeira imagem é a mais clássica do Rio, com meu bairro predileto no centro (Botafogo). A segunda imagem é o acesso principal (!) do município de Queimados.
Santos
Apesar de ser suspeito para falar (sou praticamente um santista), Santos é maravilhosa. Situada na Ilha de São Vicente, com um grupamento de morros dividindo-a no sentido norte-sul, ocupa a metade leste. A metade oeste é São Vicente (e um pedaço é Santos também). Ao contrário do Rio, a maior parte desses morros é ocupada por densa cobertura vegetal, mata atlântica primária. A cidade se desenvolveu ao longo do porto, situado dentro da bacia, de costas para a praia. Depois se inverteu o fluxo e a praia passou a concentrar as atividades, o que garantiu certa preservação ao centro, por décadas afastado dos investimentos privados. E ao mesmo tempo determinou que a praia fosse orgulhosamente acompanhada por magníficos jardins. A praia é contínua, porém pontilhada por duas ilhas: Urubuqueçaba e Porchat (esta ligada à Ilha de São Vicente por um istmo artificial). Na divisa dos municípios, o Morro quase chega à praia, sem tocá-la, no entanto. Os prédios possuem gabarito parecido, sem grandes alturas. Assim, ao caminhar na beira da praia, é possível enxergar por detrás deles a moldura da Serra do Mar, verdejante e enevoada.
Como nada é perfeito, estão estragando essa beleza. Há um Plano Diretor novo que permite aos incorporadores que construam bem acima do gabarito antigo. Já existem algumas construções despontando. É a vitória da ganância e do economicismo sobre a cidadania, o bem-estar da coletividade. Da coletividade humana, já que um lugar tão lindo não pertence apenas aos santistas, mas a todos: brasileiros e estrangeiros.
Esses prédios altos são uma ofensa à Cidade de Santos e ao povo santista. Acabaram com o gabarito contínuo que permitia, ao caminhar no beira-mar, a vista da moldura da Serra do Mar. Por um punhado de dinheiros, o prefeito de então (e sua corja de vereadores) autorizaram essa mudança tão brusca no Plano Diretor e zoneamento da cidade. Um absoluto desastre. Os argumentos de defesa (economia em alta, alta do valor de uso do solo, atração de investimentos) são todos transitórios. A paisagem é definitiva. E ela não voltará jamais. Fico muito triste.
A primeira imagem é a "minha" Santos. A segunda é a Santos dos políticos e dos vendidos.




"Rio,
ResponderExcluirComo falar da minha maravilhosa cidade!
Lugar das praias,
de caminhar junto ao mar.
Lugar da Boehmia,
das prosas em seus bares e botecos.
Lugar das Belezas,
de suas mulheres belas como Atena.
Lugar de encontros,
apesar de haver tantos desencontros por essa vida."
No finalzinho segue um pouco de Vinicius de Moraes.rs