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quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Geografia USP – a balança está desequilibrada.

Motivado por uma troca de emails com meu antigo chefe, profº Helvio Guatelli, resolvi tornar pública uma insatisfação com os rumos que o curso de Geografia da Universidade de São Paulo (USP) vem tomando, no campo do Planejamento.

Tranquei o curso há um ano, após oito semestres frequentando a FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas). Posso assumir que exagerei minhas expectativas referentes ao curso de Geografia. Especialmente no que tange a Planejamento, com destaque para a abordagem física do território. No meu conceito inicial, o Geógrafo seria o profissional mais indicado para atuar com Planejamento integrado, envolvendo a escala do urbano e do rural. A abordagem do profissional Arquiteto Urbanista é sempre focada no urbano e nas potencialidades que as cidades oferecem. No meu caso, nascido e criado em cidades sem quase nenhum vínculo com o rural (Santos e São Paulo), isso se reforça.

Desde os primeiros semestres, já percebi que a abordagem territorial, física, do espaço, seria muito rara. O debate quase invariavelmente gira ao redor da teoria. O que deveria (ou poderia?) ser muito válido, obviamente, pois estamos tratando da USP, que é formadora da elite do pensamento intelectual do país. No entanto, o foco na teoria nunca deveria desprezar a prática, já que uma boa parte dos formandos irá atuar profissionalmente, nas consultorias e no poder público.

Mas a minha decepção foi crescendo conforme avançava nas disciplinas mais próximas do final do curso, mais “especializadas”1. Algumas linhas da Geografia Crítica e Pós-Moderna recebem grande destaque nas disciplinas, o que é absolutamente normal, visto que essas correntes são as mais importantes hoje e tiveram grande desenvolvimento no Brasil. Mas há uma crítica muito dura ao Planejamento (especialmente Urbano), embutida em teorias dessas correntes. No entanto, essas críticas, no Departamento de Geografia da FFLCH-USP, passam a ser contra a disciplina Planejamento em si. Em outras palavras, o que incomoda aos autores que fundamentam essas teorias (David Harvey, Henri Lebfreve) é o mau uso da disciplina, enquanto para os professores o que incomoda é a disciplina em si!

Essa visão crítica destrutiva do planejamento urbano e até do urbanismo nasce da ideia que tais disciplinas estão a serviço das elites. Oras, é bem possível que isso aconteça. Assim como a Cartografia também pode estar a serviço das elites. A Economia. A História. Quiçá a Filosofia. O que importa são as pessoas por trás do trabalho em desenvolvimento. Poderíamos citar vários exemplos de casos de sucesso, onde o resultado foi um lugar melhor e ainda assim inclusivo. Desenvolvimento e inclusão: são as duas palavras que os profissionais sérios do urbanismo carregam a todo momento! Infelizmente, a prática recente publiciza exemplos contrários, de apropriação particular do investimento público. Mas essas práticas são denunciadas mesmo entre os urbanistas, oras (veja os livros da Mariana Fix, por exemplo – que aliás a toda hora cita Harvey).

Minha opinião é que estão deixando a ideologia (sim, ideologia) dominar suas opiniões a respeito de algo que conhecem cada vez menos. Vou repetir as palavras do grande professor Helvio:

“Fabrício, bom dia. Com sua autorização, passarei sua mensagem a alguns amigos. Impressiona-me como estão ideologizando uma atividade que se propõe atuar exatamente no espaço crítico, na cidade ilegal, na cidade injusta. Só posso debitar essa postura a dois tipos de indivíduos: aos anarquistas e aos bobos radicais. Como eles não são anarquistas... Fato é que falta a tais pessoas leitura da complexidade do urbano contemporâneo. Pior, falam essas bobagens com o tom do néscio, do parvo que assumem convicções e não admitem críticas.”

Além disso, excluíram a única disciplina de planejamento da grade obrigatória. De um ponto de vista mais geral, é um desperdício, uma pena (pelos motivos expostos no primeiro parágrafo). Mas de um ponto de vista "egoísta", melhor para nós, arquitetos, que acabamos tendo a oportunidade de participar (e coordenar) trabalhos em escalas que ultrapassem o urbano. Portanto, minha conclusão é que a Geografia ensinada hoje na faculdade está, no mínimo, como uma balança desequilibrada. A ideologia pesa de uma lado, tendo como base a teoria (que ao mesmo tempo incrementa a diferença) e deixa o lado prático (profissional, atuante, militante) muito leve.

2 comentários:

  1. Vc ja ta causando ai na usp ne' :p
    abçs

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  2. Ah! Ia fazer uma nota sobre a "especialização" das disciplinas dentro da grade curricular, que acaba impedindo os alunos de terem uma visão geral da Geografia... mas pensei bem e além disso ser óbvio, teria que ser discutido em outro lugar, não nesse blog.

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