Desastres Artificiais (Parte I – Por que Desastres Artificiais?)
Na natureza, essas movimentações não seriam consideradas ”desastres”. Fazem parte de sua história. A sua escala de tempo é diferente da humana. Para o homem, vinte anos é muita coisa. Para a natureza, o desabamento de um morro e sua reconstituição, em duzentos anos, é apenas um detalhe.
Por isso, desastres naturais são eventos muito, mas muito raros. É o degelo de uma geleira, a seca de um lago, a explosão de um grande vulcão, um terremoto de grande magnitude, um tsunami centenário, um chuva espetacular.
Para nós, humanos, o tempo é outro. Vivemos apenas uma vida, que pode parecer longa, mas para a natureza é apenas um sopro. Consideramos uma morte antes do tempo como “desastre”.
Nas áreas antrópicas (ocupadas pelo homem) há muita modificação do terreno natural. Esses movimentos humanos expõem partes desse conjunto que a natureza criou através dos séculos: seja retirando a cobertura vegetal, seja alterando o solo, seja desviando as águas, seja impermeabilizando o terreno. Essas práticas incrementam as chances de acontecer um “desastre” (entendido como mortes).
Mas o homem detém o conhecimento, a técnica. Quando a técnica é aplicada, os problemas de realizar essas movimentações podem ser previstos. E se podem ser previstos, podem ser previamente sanados.
Só que, apesar da humanidade deter o conhecimento, a técnica, essa não é largamente utilizada. Vemos Brasil afora áreas cujas coberturas vegetais foram removidas aleatoriamente, onde o solo foi exposto e jamais tratado, rios e córregos desviados sem critério, cidades inteiras impermeabilizadas, direcionando em alta velocidade as águas das chuvas para pequenos canais...
Portanto, essas áreas ficam sujeitas a “desastres”. Pode ser que foram precipitadas por eventos naturais. Mas se acontece todo início de ano, não pode ser considerado desastre natural. Essas grandes chuvas não são tão raras assim. O fator principal que causa o “desastre” é a fragilidade da ocupação humana (daí o termo “artificiais” do título), precipitada por esses eventos naturais “normais”.
Se nós, humanos, resolvessemos difundir o conhecimento, a técnica, esses “desastres” poderiam ser evitados. A ocupação humana não seria tão frágil.
Por isso vou escrever uma série de posts referentes a “desastres”. Mas não são desastres naturais. São desastres causados pela fragilidade da ocupação humana, como a maioria dessas manchetes de começo de ano (Angra dos Reis, Niterói, São Paulo, Mauá, Rio de Janeiro, Teresópolis, Murici, mais um longo et cetera).
Finalmente, vou contar uma anedota que exemplifica o conceito adotado em projetos para o que denomina-se “desastre”. Antes, é preciso explicar um conceito, utilizado em projetos de drenagem ou canalização, a fim de dimensionar o espaço por onde as águas vão passar. Uma chuva de X anos é o total de precipitação diária que a maior chuva em X anos pode conter. Ou seja, uma chuva de 10 anos é o total de precipitação que a maior chuva em 10 anos contém. É menor que uma chuva de 100 anos e maior que uma chuva de 5 anos.
Lembro-me que conversava com os engenheiros Márcio Pacheco e José Celestino da Mata sobre um projeto de drenagem e o dimensionamento para uma chuva de 100 anos. Inexperiente, eu argumentei que era super-dimensionado e que terminaríamos as obras de urbanização do bairro muito antes de uma chuva dessas acontecer. Os dois engenheiros contra-argumentaram e me convenceram muito facilmente: esse é um conceito puramente estatístico. E se a chuva de 100 anos acontecer amanhã?
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